terça-feira, 10 de setembro de 2013

Não impressionada



Eis que a paz e a tranquilidade se abatem sobre a minha cabeça. Supostamente deveria ser agradável, mas é pura estratégia de defesa para não enlouquecer ainda mais. É pura letargia, pura desistência e impotência por perceber que nada posso fazer para evitar que as coisas sejam assim. Na verdade não sei se não estão bem assim, na verdade não sei se não se trata de pura fraqueza minha, falta de confiança, coisa que deveria já ter condições para ter. E ainda não tenho, mas já vou tendo. Por isso é que desisti de não estar em paz e tranquilidade. Por isso é que desisti de ter medo. Já não consigo ter medo, porque para ter medo é preciso ter energia e eu já não tenho energia. Ou tenho, que a tenho ido buscar lá ao fundo, mas não é para a gastar no medo. É para reagir, como eu ando sempre a dizer aos outros para fazer. Reagir. Tenho de reagir. Não sei bem como é que isso se faz, acho que já o fiz umas quantas vezes, mas nunca estive muito atenta ao que estava a fazer, então não reparei, simplesmente reagi. Deu certo, deu mesmo, a ver se da próxima vez estou com atenção e anoto a receita de como se reage ao medo. Ao medo das coisas que não se vêem e não se sabem da incerteza do chão que se pisa. De onde se vai meter o pé. Tem-se medo das irregularidades do solo que se cravam nas plantas dos pés despidos, que a caminhada se faz sempre de pés despidos. Mesmo que os tentemos calçar, não há calçado que resista a tanta irregularidade e diversidade de irregularidades de pisos que nos surgem a cada virar de esquina, a cada curva de estrada. Ainda quando as irregularidades cravadas nos pés vêm acompanhadas do cheiro suave das flores, de momentos de erva macia e verdejante, do chilrear doce dos pássaros encantadores que o caminho vai revelando... mas e se não houver muletas de cheiros suaves e sons doces para nos apoiarmos? E se tudo for hostilidade e irregularidade a cravar-se na carne? E se nos depararmos com um monstro e estivermos sem forças para o defrontar? Vem o medo, o medo que brota do pensamento e das imagens que surgem na mente, e das recordações dos momentos em que os monstros apareceram sem estarmos capazes de estar à sua altura. E nos engoliram e nos enfraqueceram para sempre, deixando na alma uma cicatriz por cicatrizar, uma ferida aberta que nos faz coxear vida fora. 

Não tenho medo. Já comprei a armadura. Comprei-a e embuti-a em mim, na minha alma. Doeu. Mas é doce o sentir das balas chegando e voltando para trás. Doce sem ser suave, o ondular da chapa ao sabor do choque, transformando a violência em diversão. Nem sempre absolutamente agradável, nem sempre sem medo ou desconforto, mas ainda assim, diversão. Mas é doce o sentir das unhas dos monstros arranhando o metal, impotentes. O perceber a voz doce e suave, tal como os sons e os cheiros, que se faz ouvir ecoando pelas paredes metálicas e que me fala, e que me tranquiliza. E que garante que a dor só vem do que não faz sentido, que o não saber e o não perceber fazem doer, e que diz que me vai explicar, que eu vou saber e perceber. E já comecei, já me começou a explicar. Já começou o medo a fugir. E a paz a chegar.

sábado, 31 de agosto de 2013

Impressionada com... o caos.



Olho do cimo do morro para a paisagem que se estende ao meu redor. Não vislumbro qualquer saída simpática ou agradável. Não há muitas saídas, e das que há, nenhuma se apresenta como simples, viável, agradável, transitável. Qualquer das saídas, para ser lógica ou decente, pede-me que tenha fé. Mas agora vejo, perdi a fé. Não que tenha motivos para isso. Simplesmente vi que a felicidade é coisa muito simples, nem carece de muita fé. Quando se chega lá, à felicidade, fica-se confortável. É bom estar lá, vive-se o presente, mas esquece-se de sonhar. Infelicidade, eu te abençoo, pois nenhuma como tu nos atiça a capacidade de sonhar; foste tu quem me ensinou a sonhar! Quando era feliz não tinha sonhos... talvez não fosse feliz. Ser feliz não é descansar. Ser feliz é sonhar, batalhar, é caminho, não é chegada. Mas cheguei, que bom que cheguei, merecia chegar, descansar, foi tão bom chegar. 

Agora não queria partir. Procuro pelas forças, sem as conseguir encontrar, não as vejo, não as acho, por mais que procure. Algo diz que quando delas necessitar, irão aparecer. Tenho dificuldade em acreditar, não estou segura, desconfio, não estou habituada a confiar.

Se fui traída quando confiei, não quero mais fazer os meus planos tendo que confiar. Deixar-me construir o meu amanhã só sobre aquilo que conheço e não no que não conheço. 

Mas não fui traída quando confiei, apenas pensei que seria de uma maneira e foi de outra, mas a outra maneira que foi, foi tão boa. Tão boa! Tantos dos meus sonhos se concretizaram, talvez todos! A minha fé transformou-se e manifestou-se no real de forma tão forte que me pareceu normal aquilo que julgava que apenas a sorte me pudesse trazer. Guardei o sonho e a fé na gaveta, usei-os tanto que quase os gastei; agora já não parecem fazer falta, agora já me regularizei, a mim e à minha vida.

Mas a vida não é assim, a minha vida não é assim; é professora exigente, mestra implacável que não esquece por momento algum a possibilidade de puxar mais por mim, dilacerar-me até quase me matar, deixar-me chegar ao limite do limite. Na minha lição vem a fé e o sonho e ela sabe que eu me esqueci. Eis que a minha professora vida decide fazer revisões; de repente, quando dou por ela, rebobinou vários anos e traz-me à memória tanto do que esqueci - mas é apenas uma parte - afirma a professora vida - que o resto está ainda por vir.

Coisas encaixarão, verdades se revelarão. Queria senti-las antes de as ver, mas isso será algo que terei de merecer; que uma mente iluminada não se constrói de hoje para amanhã. Lá chegarei. Por agora, queria apenas ter as forças que necessito para lutar, pois é luta, mais uma vez, que se avizinha... como eu queria paz! Mas a paz só vem no jazigo. Viver é não ter paz ou, pelo menos, é certamente não ter descanso...