"O medo mutila a escrita."

Salman Rushdie

Terça-feira, 21 de Fevereiro de 2012

I'm not impressed anymore



Am I no longer a philosopher? Have I ever been one? Everyone is, even when you're not impressed anymore.

Que os sentimentos intensos tolhem-nos as vistas; as impressionações anulam-se a elas próprias por esse não permitir que se veja como deve ser e que nos impressionemos como deve ser. Deve ser isso; agora vejo e estou como deve ser impressionada, o que tem a aparência de não estar impressionada - é sempre assim neste Universo. As coisas que realmente são, nunca parecem muito que são, e as coisas que não são nada tantas vezes parecem que são mesmo. Os seres têm de continuar a ter razão de ser, e não existe razão de ser se não existir não saber. Por isso as coisas não são o que parecem e o mundo é ilusão - ideia sobejamente manifestada por estas bandas, tanto que enjoa já, farta estou de estar permanentemente manifestando-a. Mude-se o disco. Continuando. Talvez não pareça estar impressionada, ou não me sinta particularmente impressionada, por estar tão profundamente impressionada. Mas disso eu não posso saber, porque estou dentro de mim e dentro de nós nunca se vêm bem as coisas. Portanto, não sei bem como estou. Mas mesmo estando dentro de mim mesma, às vezes sei como estou. Ou penso que sei, porque o outro dizia que só sabia que nada sabia, e eu se calhar vou pelo mesmo caminho.

Quanto mais se sabe e percebe mais se sabe que nada se sabe, o que é bom, isso de se ter a noção do quanto se é ignorante; e mesmo assim não temos, pois tudo é coisa que se não abarca. Só sabemos do que falta se percebermos dos fins e dos limites. Que sabemos nós dos limites disto onde estamos. Nada. Então, não só não podemos saber, como também não podemos saber que nada sabemos. Oh vida esta.

I'm not impressed anymore. Mas porquê? O que mudou? Posso pensar que sei mas não sei. Mas sei que o caro leitor já se deve estar a irritar com a minha pessoa. Não sei. Voltei, simplesmente voltei. Ou não, nunca se volta, nunca se traça o mesmo caminho duas vezes, acho. Quando se volta nunca se volta a de onde se partiu. Saber do porquê de eu não estar mais impressionada é coisa que se deve ler ali ao lado, onde falo do fluir da corrente da vida que é a minha. Que aqui não me apetece se não divagar, que foi para isto que criei um blog chamado impressionantes impressões, divagar é que é bom. Bem sei que nem sempre divago, às vezes lá tenho rumo, nem todos os posts deste blog são de natureza filosófico/descritiva. Às vezes falo de mim e reflicto nas minhas impressionãncias.  Ou serão impressionâncias? Não sei. É que eu não sei.


Alma Lavada




Extraordinária paisagem essa que se consegue quando se olha ao redor e se vêm apenas casinhas baixas, construídas de pedras umas em cima das outras e ao longe o pinhal, o pinhal e mais pinhal. Uma cadelita e os seus dois filhotes dormem, mais além, uma sesta embalada pelo frio que se faz sentir; o frio que parece ser mais frio ainda, pelo meio das ruas apertadas de pedras e mais pedras. E pelo meio da vegetação verde húmido e brilhante... o frio parece mais frio. Mas eu não o sinto, ou se o sinto, gosto de o sentir. E vendo-me olhá-la com uma expressão amistosa, a bichinha dirige-se a mim, coxinha e tudo, mas feliz, na expectativa do mimo, que não se faz esperar. Acompanhada pelos pequenitos, que a rodeiam por todos os lados, pulando e saltando alegremente, a mãe vira a barriga para cima à espera de umas festinhas na barriguinha, magra, mas bem alimentada. E a festinha não se faz esperar. Cuidado que não os conheces, podem ter pulgas... por que motivo estas advertências nunca me demoveram? Tempos houve em que vivia aprisionada pela cautela... quase parecia que era apenas eu quem estava certa e todo o resto do mundo enganado. A cautela é, contudo, como tudo neste mundo, pois nada existe que seja absoluto nesta existência fragmentada... e escraviza como tudo o resto que se não tem em boa conta e boa medida. Escraviza, pois nada neste mundo permanece na mesma muito tempo e a cautela, como tudo, azeda e transforma-se em medo de viver. E o único verdadeiro medo de um ser humano é o medo de si próprio. E o medo de viver é o medo que se tem de si próprio.


Mas nas ondas do mar revolto e pelo meio das pulgas saltitantes dos cães, dos gatos e por aí, a cautela não me visitava a alma, dava-me tréguas por um instante e eu, por um instante, vivia e gostava de viver... e sentia que, algures, existiria alguém para além da cautela, alguém por descobrir, alguém que levaria muito a descobrir, mas alguém por quem eu procurei sempre, porque sempre senti, alguém a quem eu nunca desisti de procurar... e como isso de procurar e não achar é só nas histórias... a realidade foi lenta, porém, generosa para comigo.

O caminho que se seguiu foi cheio de surpresas, que só não foram verdadeiras surpresas porque eu já as conhecia de outras andanças, já as sabia por ali, mas transformaram-se em surpresas pelo amontoado de dias que separava esta minha visita de ontem da última vez que eu por ali lançara os meus olhares.

O burro comia esfomeadamente; apesar das visitas fixarem nele os seus olhares curiosos, limitava-se a fixar as visitas com a curiosidade dividida entre os visitantes e a fome devoradora, o seu maxilar inferior descrevendo círculos, os seus olhos pretos e redondos, ladeados de pestanas longas, como as de uma princesa, fixos em nós, mas nunca desistindo do repasto.

Na porta seguinte, uns brancos outros dourados, ao contrário do burro, largaram o que fosse que estavam a fazer e vieram espreitar os que à sua porta se assomavam para espreitar, não propriamente num acto de cortesia, mas para avaliarem a possibilidade de uma fuga, provavelmente porque desde aquele filme que se chamava “A Fuga das Galinhas” os galináceos não pensem em outra coisa que não experimentar a mesma aventura e a mesma emoção

Sigo pelo velho trilho e deparo com dois lindos olhos vivos, verdes, fixando-me, esbugalhados, de prontidão para qualquer emergência, ou até, para a fuga antes sequer que tal se justificasse... e, ignorando os meus “bchi, bchi, bchi”, foge-me, sem me dar qualquer hipótese sequer de me aperceber de mais pormenores do seu focinhito fofo.

Não há tempo para perseguir o gato (por ali já todos estão habituados e ver-me nessas figuras), o avô está lá em baixo e eu preciso perguntar-lhe se está melhor da queimadura na perna que fez na fogueira lá de casa.

O avô e toda a família, nas lides agrícolas... e a cabra contemplando a agitação provocada pelo fluxo mais intenso que o habitual de personalidades menos familiares ao território dela... olha para mim, cabrita. E ela olha, e vem até na minha direcção. “As cabras são malucas”, disseram-me outrora e cheguei mesmo a ficar com receio de que viesse assim, lampeira, para fazer algum disparate, mas... esse medo nunca vence nestas alturas e acabei a fazer-lhe mimos, embora tivesse que enfrentar a desilusão do animal, que estava cheio de esperança que eu lhe tivesse levado uma folhita de covinha...

Deambulei por ali, pelo terreno que o meu tio adquiriu recentemente (“Eu sou assim”, diz ele, em tom fatalista), fui indo, fui indo até chegar novamente perto da casa e avistar novamente o gatinho arisco, que logo fugiu mal os seus olhitos cruzaram os meus.

Antes havíamos feito uma incursão por caminhos acidentados, com porções da rocha mãe entrevendo-se pelas descontinuidades da terra, o pobre carro familiar, qual “Land Rover” no Lisboa-Dakar, debatendo-se para chegar ao nosso destino: o laranjal, diria eu, os poços, chamam-lhe eles. Poços, não sei quantos são, sei que eu até agora só lá vi um, com uma nora, onde eu gosto de brincar às mulas e ver os baldinhos subir e descer, apanhando e largando água. Mas desta vez, a missão era séria: resgatar as laranjas que ainda restavam depois de muitas terem sido queimadas pela geada... e mesmo assim, não conseguimos carregá-las todas: uma grade de cervejas velha e poeirenta encheu-se de laranjas, quase até caírem e rebolarem pelo chão... mas tínhamos ainda a minha mala, que eu levara a tiracolo e passara todo o caminho a perguntar-me o porquê de a ter levado, ali nem havia rede, nem o telemóvel me serviria do que fosse... a minha mala encheu-se de laranjas e ainda consegui perder uma pelo caminho; tive de correr atrás dela para que se não me escapulisse e fosse para algum sítio daqueles que realmente dá muito trabalho para lá chegar...

Deixando a família para trás, caminhando no regresso, surge uma ponte... com um rio a passar por baixo... e já que paramos para contemplar o rio, por que não descer até lá? Descemos. Só tem interesse se chegarmos mesmo perto da água. E chegámos. O meu pai vai sempre mandar pedrinhas, daquelas lisinhas e achatadas, procurando vê-las chegar à outra margem, deixando atrás de si uma fila indiana de circunferências desenhadas na superfície da água. Acho que, pela primeira vez, tive a coragem de tentar imitá-lo e de enfrentar o total fracasso: as pedras saindo das minhas mãos, pareciam transformar-se em calhaus enormes e pesados que faziam um grande "BOLNC" na água e não percorriam mais do que 1/10 do percurso necessário para chegar ao outro lado, e não faziam mais do que uma circunferência enjilhada e distorcida, salpicada pelas gotas de água levantadas no mergulho da pedra... será que eu algum dia vou conseguir fazê-las chegar, com harmonia, ao outro lado?



(Janeiro de 2008)

Eu tenho um coração vermelho


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Eu tenho um coração vermelho, de feltro. Daqueles que as pessoas fazem em casa, manualmente, e depois vendem aqui e ali. Não costumo gostar do feltro… basta uns tempos nos bolsos para ficar com mau aspecto. E se calhar, pensando bem, até gosto do feltro, porque gosto de coisas velhas e cansadas, e o feltro, ao fim de pouco tempo, parece assim, velho e cansado, como eu gosto… gosto de coisas velhas e cansadas, acho sempre que devem ter imensas histórias para contar. Ou talvez não goste do feltro, porque esse aspecto raramente se deve às marcas de tempo e acontecimentos em quantidade. Hoje o meu coração, grande e vermelho, caiu ao chão. E o chão estava sujo e molhado, porque choveu toda a noite. Choveu e fez vento, muito vento. E o chão ficou molhado, e quando o meu coração grande e vermelho caiu, ficou sujo. Na parte de trás… Sujou-se. E molhou-se também. Encostei-o à face e estava molhado, molhou-me a cara, um pouco, junto ao olho, como se fosse o rasto ténue de uma lágrima. Ao meu redor, pessoas. Pessoas que nada sabem a respeito do meu coração, que, indiferentes, seguem viagem comentando trivialidades, banalidades. Elas viram, mas não repararam, não perceberam que o meu coração caiu no chão molhado e se sujou. Ou se repararam, acharam que não era importante. O mais importante do mundo são os reclames da televisão, o trabalho que é horrível e as casas para pagar. As casas para pagar. As pessoas ao meu redor tagarelam sem cessar. Nada sabem a respeito do meu coração, vermelho e grande, de feltro, novo, mas com aspecto velho e cansado. Nada sabem e eu também não digo. Não há espaço para palavras de outra natureza, não há espaço para sentimentos. Não há espaço para as palavras que falam dos sentimentos no meio das palavras que falam de trivialidades. As palavras que falam de trivialidades ocupam muito espaço, porque estão sempre inchadas do ar do vazio do quotidiano e da normalidade. As palavras que falam de trivialidades flutuam pelo ar e volatilizam o rasto ténue de lágrima que o coração molhado deixou. O meu peito de estilhaços contrai-se sobre os estilhaços e dói de piedade pelo coração grande, e vermelho, e de feltro, e sujo e molhado. Que pena, penso eu… que pena!! Nunca mais será o mesmo, mesmo que eu peça à mãe, eterna enfermeira de corações sujos e outras coisas partidas, despedaçadas, estilhaçadas. Nunca mais será o mesmo. O coração grande e vermelho, sujo da dor dos sonhos irrealizáveis, sonhados por vontade própria, por loucura própria, porque a vida é para ser vivida intensamente, minuto a minuto, como se não houvesse amanhã, ignorando todos os avisos, todos os perigos, a dor que sorri por trás da cortina transparente dos meus sonhos insensatos. A sensatez serve para proteger da dor. A sensatez costuma também proteger-nos da própria vida… por impedir-nos tantas vezes de viver… e proteger-nos da própria vida é insensato, se estamos neste mundo para viver. Se só vivendo se aprende alguma coisa sobre o que é isto de se existir. Ou talvez não. Talvez mesmo vivendo não se aprenda nada. Ou talvez viver não seja a única forma de se perceber o que é isto de existir. Agradeço, mas dispenso as lágrimas que caem hoje dos céus em sintonia com o rasto ténue de lágrima no meu rosto, lá bem junto ao olho. O rasto ténue de lágrima – o único e o pouco que consegue sair, que tem espaço para sair, porque as trivialidades ocupam muito espaço. Porque as lágrimas das dores dos estilhaços, essas têm de ser choradas para dentro, engolidas como sapos viscosos, molhados e escorregadios… e amargos, muito amargos Não conheço arrependimento. Nem sei bem o que isso é, tão raramente me visita. Não estou arrependida. Estou simplesmente. Aqui e agora Doce engano; enquanto o sonho me embalou nos teus braços, enquanto senti o paraíso que é sentir a tua angelical protecção, a minha casa foi a suprema felicidade. Doce engano; se não houvesse sido embalada pelo sonho e olhasse de frente a dura realidade, jamais conheceria, como conheço hoje, os aromas do paraíso. Por um instante, estive lá tão perto… talvez um dia eu consiga lá viver. Para sempre. Não sei para que são estas lágrimas que caem do céu. Quererão elas lavar as minhas lágrimas, levá-las com elas? Pretenderão com isso aliviar a minha solidão? Se a minha solidão é maior que o mundo, igual ao amor que antes ocupava o espaço vazio do buraco que agora tenho no coração. Coração demasiado grande, demasiado vermelho e, por isso, agora sujo. E molhado. Ou talvez não. Mas se o amor que é verdadeiro nunca morre, mesmo com a chuva, mesmo com a sujidade, mesmo com os buracos… E agora? … Dia triste de chuva. Logo eu que gosto de chuva… triste ironia. Dia triste de chuva, mas se eu gosto de chuva… da chuva que cai das nuvens e, sem tempo para mais, é de imediato arrastada pela violência do vento que agita tudo por onde passa, levando pelos ares folhas mortas e restos e lixos esquecidos no chão, obrigando-os a dançar em espirais de remoinhos num qualquer canto sem saída… que desfigura as árvores e os nossos rostos que se contraem involuntariamente… ainda que temporariamente… o vento que, segundo dizem, traz a mudança… traz mesmo a mudança... e a chuva, a purificação. Coração vermelho, grande e sujo… purificado. Nunca mais será o mesmo. (04/03/2009)