quinta-feira, 1 de novembro de 2012


Um dia, apanha-se o comboio. Durante muito tempo, caminhou-se a pé. Doíam os pés, faziam-se bolhas e feridas de toda a espécie. Mas um dia, apanha-se o comboio. Chega uma altura em que temos de correr, porque o comboio já vai em andamento; na vida, todos os comboios já vão em andamento, e antes de se os apanhar, é preciso correr, correr muito. Por vezes, é preciso correr depois de caminhar, quando já se está ferido e cansado, mas se se correr, às vezes, apanha-se o comboio. E depois olha-se para a paisagem que vai ficando para trás, engolida pelas linhas do horizonte, e vai-se vendo o sentido, vai-se percebendo o modo como tudo converge, a forma como tudo se encaixa num quadro maior, a forma como umas coisas se seguem às outras. Quando se apanha o comboio, os solavancos são suaves, comparados com o chão duro, frio e irregular, cheio de arestas cortantes, que nos serviu de sustentação em anteriores momentos. Ainda assim, ao cabo de uns tempos de comboio, os próprios solavancos começam a parecer excessivos, deixamo-nos embalar pela constância do percurso, assim como pela sua previsibilidade e acabamos a elevar os padrões de exigência. Somos estranhos, nós seres humanos, mas bem me parece não ser esta a primeira vez que por aqui faço tal constatação. 

De comboio, tudo flui, a paisagem passa rápida pelos vidros, não deixando a vista deter-se em demasia naquilo que não é absolutamente essencial. Sobram energias para pensar no futuro e o objectivo mais próximo deixa de ser apanhar o comboio, começamos a lembrar-nos de todos os projectos que adiámos enquanto o chão irregular e cheio de arestas cortantes apenas nos deixava sonhar com o comboio... e nessa altura, pensamos que perdemos tanto tempo a desejar apenas algo tão básico como o comboio, que a aflição vem, a sensação de que é preciso recuperar o tempo perdido, a sensação de que, mesmo parados, dentro do comboio em movimento, precisamos correr, acrescentar movimento ao movimento. 

E o comboio ganha velocidade e começamos a esquecer-nos de como era antes do comboio, começa a parecer-nos inacreditável que algum dia tivéssemos realmente caminhado de pés descalços no chão, e questionamo-nos "como foi mesmo" que apanhámos o comboio, já não conseguimos recuperar os detalhes...

Que o comboio acelere, que eu deite cada vez mais lenha para a sua caldeira e faça o que estiver ao meu alcance para lhe aumentar a velocidade, numa tentativa, é certo, de não atropelar ninguém, mas também de não só não me atrasar ainda mais, mas mais que isso, de fazer agora o que não pude fazer antes... antes que seja tarde de mais...

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