sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Magia


 Fada ou bruxa? Qual a grande diferença? Talvez a mesma que existe entre o bem e o mal. E existe, de facto, essa diferença? Todos nós transportamos, por dentro, um pedaço de branco e um pedaço de negro. Há o que desperte em nós o negro e há o que desperte em nós o branco, porém, há de nós aqueles que deixam que o negro desperte com mais facilidade e outros que deixam ser o branco a fazê-lo, assim, naturalmente, sem mais nada, porque uns são mais de certa maneira e outros são mais de outra maneira, pois bem. E eu? Bruxa ou fada? Olho-me ao espelho e vejo que a bruxa cresce ao mesmo tempo que a fada. Que a fada precisa da bruxa para ser forte, mas que a bruxa sai fora de controlo sem a fada. E é estúpida, e só faz porcaria, e é esperta como os cães, mas falta-lhe inteligência, à bruxa, que a verdadeira inteligência vem da bondade, já lá dizia o outro e com razão. Tudo o resto é esperteza apenas e tão só; mas a fada sem a bruxa esquece-se que o mundo está cheio de gente cheia de más intenções e que é preciso aprender a pensar como a gente má, para contra ela se criar um escudo belo, invisível, suave e subtil, que nem se vê, que nem se sabe existir, mas que está lá. Por vezes apetece-me ser apenas bruxa; outras, apetece-me ser apenas fada, mas é na junção das duas que está a minha verdade. Olho para mim e desconheço-me; antes não havia bruxa, mas também não havia fada. Se quero uma, preciso da outra, elas alimentam-se e interdependem. 

A bruxa enfraquece a fada com a sua estupidez. E a fada enfraquece-se a ela mesma com o seu esquecimento. E alheamento, e mergulhamento num mundo de fadas, mas não fui feita para viver num mundo de fadas. Fui feita para chafurdar na lama das coisas que às vezes cheiram mal, e aprender a fazê-lo sem perder-me de mim e da dignidade. Chafurdar na lama é bom porque encontramo-nos com monstros e os monstros têm sempre coisas boas para nos ensinar, e eu aprendo coisas boas com os monstros, mas depois apetece-me ir embora, que me sinto suja, e vou, embora.

Tantas vezes penso como seria mais tranquila a minha vida eu fosse apenas fada, mas depois penso que quem anda por aí com magia nunca é apenas fada, pois faz coisas que não se vêm por aí e o mundo tem medo das coisas que nunca viu, não compreende e não percebe e ataca, como fazem os que vivem dotados de irracionalidade. Às vezes quero descansar, mas não posso, a lama chama por mim, e eu vou; com o gel de banho atrás, contudo. 

Porque foras da lei são tanto as fadas como as bruxas e rasgar pelo mundo os caminhos menos percorridos necessita de tanta força que o bem por si e o mal por si, não têm força... só aliando as suas energias se consegue conquistar o mundo...

2 comentários:

Tétisq disse...

há em nós uma bipolaridade axiológica que se reflecte na realidade "oculta" presente em cada um de nós...

Nina Porcelain Lennitta disse...

Somos tão ilimitados... somos tão mais do que aquilo com que convivemos habitualmente! O grande Universo desconhecido está dentro de nós!