domingo, 4 de novembro de 2012

Ao contrário


Hoje sou eu que me viro contra mim; é quase sempre assim, e com todos nós, não apenas comigo, somos quase sempre nós a virar-nos contra nós. Hoje estou assim, do avesso; tenho o coração na boca a bater, a bater muito. Mas não corri, sequer me mexi, mas ele bate, como se voltasse da maratona. Quanto mais sossego, mais ele se agita, quanto mais me acalmo, mais ele palpita, e eu não percebo porquê. Talvez funcione ao retardado, como os relógios que ficam para trás na acção de mudar a hora pelo Outono. Talvez se agite pelos momentos passados em que corri, talvez se agite pelos momentos em que outrora fiz e aconteci. Talvez se tenha esquecido de bater então, nesses tempos, e tenha de bater agora por tudo o que se esqueceu de bater. 

Trago o estômago no pescoço, a par com o coração na boca. Algo ficou pelo caminho; algo que deveria descer e não desceu, ou algo que deveria subir e não subiu. Aqui ficou, e agora não respiro bem, os pulmões não se enchem se não empurrar o ar, se não o puxar com um suspiro. 

E se me esquecer? Se me esquecer de mim e do bater descompassado, e mais do que por aqui me ficou entalado... talvez o esquecimento, e o adormecer me faça perder do descompasso generalizado do corpo que procura vingança por algo que não lhe fiz. 

Talvez por isso o sono me invada a todos os momentos e talvez por isso eu teime em não ceder e durma ainda menos, numa atitude de rebeldia, como quem diz aqui quem manda sou eu. O corpo que escolhe desligar-se e esquecer-se do mundo e da vida, como se lhe não apetecesse, como se eu lhe houvesse pedido em demasia, por algo que não lhe apetecia fazer. 

É doce ceder à chantagem que o corpo faz quando pede por descanso; é difícil resistir-lhe e à sua vontade de sucumbir. Não, quem aqui manda não sou eu, que as minhas forças são tão mais frágeis do que os mandos e desmandos de um corpo que tem vontade absolutamente própria e que deita por terra toda e qualquer resistência que um qualquer livre-arbítrio possa tentar impor-lhe...

2 comentários:

Irisazul disse...

Humm... parece doença... mas é capaz de ser mais inquietação. Recomendo: 1 chá quentinho e a leitura "daquele" livro, até o coração acalmar ou então...não! ;-)

Beijinho!

Nina Porcelain Lennitta disse...

Pois... :P Quem sabe, pode ser que resulte, vou tentar! x) Bjinhoo!!