quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Sonhos derramados

Porque os sonhos às vezes derramam, vasam, entornam por fora, quando são demasiado grandes, tão grandes que não se os consegue suportar. Quando ao invés de nos obrigarem a andar para a frente, nos esborracham, paralisam, imobilizam. Quando são tão belos que preferimos mudar-nos para lá, de armas e bagagens, abrindo mão de uma vida que nos surge sem interesse, perto das possibilidades ilimitadas que um sonho oferece... esquecer que o mundo existe, com os seus reais limites... e passar para um mundo onde os limites somos nós quem os inventa... que possibilidade tentadora, a de se brincar de ser Deus!

Pois que se flutue nos sonhos derramados, que quando são assim tão grandes e derramam, acordam-nos no meio do seu jorro furioso, o dia em que, de voar tão alto, acabamos a cair desamparados no chão... acordamos, acorda-nos o chão, acorda-nos o frio da realidade... flutuemos então, que um sonho nunca é em vão, salvemo-nos, que só se afoga em sonhos quem quer... Flutuemos nos sonhos enquanto contemplamos o mundo real e auscultamos onde cabem os nossos sonhos... são os sonhos que nos salvam, não que nos afogam; a foice quem a carrega é a realidade e o mundo, são os sonhos que nos desenham a armadura com que dela nos havemos de defender...

sábado, 27 de outubro de 2012

I'm scared

The future is coming. And the future is not as I expected. 

Está a tomar feitios que não lhe conhecia. Não que eu conhecesse o futuro, mas tinha dele uma ideia. Às vezes, quando o futuro chegou, eu percebi que já o conhecia, foi bom, é mais fácil, já se espera, tudo flui melhor, adaptamo-nos melhor. Este agora, não lhe conheço o rosto... não é que não desconfiasse, mas não me apetecia que fosse assim... mas se calhar é melhor que seja assim. Normalmente, é sempre melhor que seja assim. Da maneira que é, acabamos a perceber que foi melhor. É verdade que nem sempre percebemos isso, mas acho que é muitas vezes assim, quase sempre. É melhor que seja assim. Tenho a certeza.

Mas dá medo. Mais que não seja, porque o corpo não gosta. O corpo não gosta do futuro, porque o futuro empurra as pessoas para a frente, e o corpo não gosta que o empurrem. Dói-lhe, agita-se, o coração bate muito depressa e o corpo enche-se de coisas que fluem pelo corpo fora, pela corrente sanguínea; os venenos segregados pelo coração a bater muito, contaminam cada músculo, deixando-o tenso e magoável. E eu também fico magoável, de equilíbrio intermo e homeostasia ameaçados.

O corpo e a mente não gostaram do futuro há uns tempos. Só a alma gostou, a alma regozija-se ainda agora, a alma cresceu, desenvolveu-se... porque será que o corpo não quer? O corpo que continua contraído de dor, batalhando para voltar a ser como era. Porque oferece ele tanta resistência? Porque se alvoroça a química interna? Se a alma cresce, o corpo podia tão bem colaborar... e não virar-se contra o guerreiro que luta todos os dias a dura batalha da adaptação às circunstâncias em permanente mutação, sobretudo quando o guerreiro não é assim lá muito de guerras dessas, dessas pelo menos, dessas que mais se parecem com furacões, arrancando do sítio o mais elementar dos objectos, a escova de dentes, o garrafão da água, e recolocando tudo noutro sítio qualquer, um sítio daqueles que a mente insiste em não se recordar.

Hajam desafios, que são eles que alimentam a alma, mas convença-se o corpo a acompanhar os desafios, faça-se o corpo perceber que a inércia é para ser vencida, caso contrário de nada servirá, de nada lhe servirá a tal da inércia, só para ajudar ao andamento em marcha à ré...