terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Alma Lavada




Extraordinária paisagem essa que se consegue quando se olha ao redor e se vêm apenas casinhas baixas, construídas de pedras umas em cima das outras e ao longe o pinhal, o pinhal e mais pinhal. Uma cadelita e os seus dois filhotes dormem, mais além, uma sesta embalada pelo frio que se faz sentir; o frio que parece ser mais frio ainda, pelo meio das ruas apertadas de pedras e mais pedras. E pelo meio da vegetação verde húmido e brilhante... o frio parece mais frio. Mas eu não o sinto, ou se o sinto, gosto de o sentir. E vendo-me olhá-la com uma expressão amistosa, a bichinha dirige-se a mim, coxinha e tudo, mas feliz, na expectativa do mimo, que não se faz esperar. Acompanhada pelos pequenitos, que a rodeiam por todos os lados, pulando e saltando alegremente, a mãe vira a barriga para cima à espera de umas festinhas na barriguinha, magra, mas bem alimentada. E a festinha não se faz esperar. Cuidado que não os conheces, podem ter pulgas... por que motivo estas advertências nunca me demoveram? Tempos houve em que vivia aprisionada pela cautela... quase parecia que era apenas eu quem estava certa e todo o resto do mundo enganado. A cautela é, contudo, como tudo neste mundo, pois nada existe que seja absoluto nesta existência fragmentada... e escraviza como tudo o resto que se não tem em boa conta e boa medida. Escraviza, pois nada neste mundo permanece na mesma muito tempo e a cautela, como tudo, azeda e transforma-se em medo de viver. E o único verdadeiro medo de um ser humano é o medo de si próprio. E o medo de viver é o medo que se tem de si próprio.


Mas nas ondas do mar revolto e pelo meio das pulgas saltitantes dos cães, dos gatos e por aí, a cautela não me visitava a alma, dava-me tréguas por um instante e eu, por um instante, vivia e gostava de viver... e sentia que, algures, existiria alguém para além da cautela, alguém por descobrir, alguém que levaria muito a descobrir, mas alguém por quem eu procurei sempre, porque sempre senti, alguém a quem eu nunca desisti de procurar... e como isso de procurar e não achar é só nas histórias... a realidade foi lenta, porém, generosa para comigo.

O caminho que se seguiu foi cheio de surpresas, que só não foram verdadeiras surpresas porque eu já as conhecia de outras andanças, já as sabia por ali, mas transformaram-se em surpresas pelo amontoado de dias que separava esta minha visita de ontem da última vez que eu por ali lançara os meus olhares.

O burro comia esfomeadamente; apesar das visitas fixarem nele os seus olhares curiosos, limitava-se a fixar as visitas com a curiosidade dividida entre os visitantes e a fome devoradora, o seu maxilar inferior descrevendo círculos, os seus olhos pretos e redondos, ladeados de pestanas longas, como as de uma princesa, fixos em nós, mas nunca desistindo do repasto.

Na porta seguinte, uns brancos outros dourados, ao contrário do burro, largaram o que fosse que estavam a fazer e vieram espreitar os que à sua porta se assomavam para espreitar, não propriamente num acto de cortesia, mas para avaliarem a possibilidade de uma fuga, provavelmente porque desde aquele filme que se chamava “A Fuga das Galinhas” os galináceos não pensem em outra coisa que não experimentar a mesma aventura e a mesma emoção

Sigo pelo velho trilho e deparo com dois lindos olhos vivos, verdes, fixando-me, esbugalhados, de prontidão para qualquer emergência, ou até, para a fuga antes sequer que tal se justificasse... e, ignorando os meus “bchi, bchi, bchi”, foge-me, sem me dar qualquer hipótese sequer de me aperceber de mais pormenores do seu focinhito fofo.

Não há tempo para perseguir o gato (por ali já todos estão habituados e ver-me nessas figuras), o avô está lá em baixo e eu preciso perguntar-lhe se está melhor da queimadura na perna que fez na fogueira lá de casa.

O avô e toda a família, nas lides agrícolas... e a cabra contemplando a agitação provocada pelo fluxo mais intenso que o habitual de personalidades menos familiares ao território dela... olha para mim, cabrita. E ela olha, e vem até na minha direcção. “As cabras são malucas”, disseram-me outrora e cheguei mesmo a ficar com receio de que viesse assim, lampeira, para fazer algum disparate, mas... esse medo nunca vence nestas alturas e acabei a fazer-lhe mimos, embora tivesse que enfrentar a desilusão do animal, que estava cheio de esperança que eu lhe tivesse levado uma folhita de covinha...

Deambulei por ali, pelo terreno que o meu tio adquiriu recentemente (“Eu sou assim”, diz ele, em tom fatalista), fui indo, fui indo até chegar novamente perto da casa e avistar novamente o gatinho arisco, que logo fugiu mal os seus olhitos cruzaram os meus.

Antes havíamos feito uma incursão por caminhos acidentados, com porções da rocha mãe entrevendo-se pelas descontinuidades da terra, o pobre carro familiar, qual “Land Rover” no Lisboa-Dakar, debatendo-se para chegar ao nosso destino: o laranjal, diria eu, os poços, chamam-lhe eles. Poços, não sei quantos são, sei que eu até agora só lá vi um, com uma nora, onde eu gosto de brincar às mulas e ver os baldinhos subir e descer, apanhando e largando água. Mas desta vez, a missão era séria: resgatar as laranjas que ainda restavam depois de muitas terem sido queimadas pela geada... e mesmo assim, não conseguimos carregá-las todas: uma grade de cervejas velha e poeirenta encheu-se de laranjas, quase até caírem e rebolarem pelo chão... mas tínhamos ainda a minha mala, que eu levara a tiracolo e passara todo o caminho a perguntar-me o porquê de a ter levado, ali nem havia rede, nem o telemóvel me serviria do que fosse... a minha mala encheu-se de laranjas e ainda consegui perder uma pelo caminho; tive de correr atrás dela para que se não me escapulisse e fosse para algum sítio daqueles que realmente dá muito trabalho para lá chegar...

Deixando a família para trás, caminhando no regresso, surge uma ponte... com um rio a passar por baixo... e já que paramos para contemplar o rio, por que não descer até lá? Descemos. Só tem interesse se chegarmos mesmo perto da água. E chegámos. O meu pai vai sempre mandar pedrinhas, daquelas lisinhas e achatadas, procurando vê-las chegar à outra margem, deixando atrás de si uma fila indiana de circunferências desenhadas na superfície da água. Acho que, pela primeira vez, tive a coragem de tentar imitá-lo e de enfrentar o total fracasso: as pedras saindo das minhas mãos, pareciam transformar-se em calhaus enormes e pesados que faziam um grande "BOLNC" na água e não percorriam mais do que 1/10 do percurso necessário para chegar ao outro lado, e não faziam mais do que uma circunferência enjilhada e distorcida, salpicada pelas gotas de água levantadas no mergulho da pedra... será que eu algum dia vou conseguir fazê-las chegar, com harmonia, ao outro lado?



(Janeiro de 2008)

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