terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Eu tenho um coração vermelho


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Eu tenho um coração vermelho, de feltro. Daqueles que as pessoas fazem em casa, manualmente, e depois vendem aqui e ali. Não costumo gostar do feltro… basta uns tempos nos bolsos para ficar com mau aspecto. E se calhar, pensando bem, até gosto do feltro, porque gosto de coisas velhas e cansadas, e o feltro, ao fim de pouco tempo, parece assim, velho e cansado, como eu gosto… gosto de coisas velhas e cansadas, acho sempre que devem ter imensas histórias para contar. Ou talvez não goste do feltro, porque esse aspecto raramente se deve às marcas de tempo e acontecimentos em quantidade. Hoje o meu coração, grande e vermelho, caiu ao chão. E o chão estava sujo e molhado, porque choveu toda a noite. Choveu e fez vento, muito vento. E o chão ficou molhado, e quando o meu coração grande e vermelho caiu, ficou sujo. Na parte de trás… Sujou-se. E molhou-se também. Encostei-o à face e estava molhado, molhou-me a cara, um pouco, junto ao olho, como se fosse o rasto ténue de uma lágrima. Ao meu redor, pessoas. Pessoas que nada sabem a respeito do meu coração, que, indiferentes, seguem viagem comentando trivialidades, banalidades. Elas viram, mas não repararam, não perceberam que o meu coração caiu no chão molhado e se sujou. Ou se repararam, acharam que não era importante. O mais importante do mundo são os reclames da televisão, o trabalho que é horrível e as casas para pagar. As casas para pagar. As pessoas ao meu redor tagarelam sem cessar. Nada sabem a respeito do meu coração, vermelho e grande, de feltro, novo, mas com aspecto velho e cansado. Nada sabem e eu também não digo. Não há espaço para palavras de outra natureza, não há espaço para sentimentos. Não há espaço para as palavras que falam dos sentimentos no meio das palavras que falam de trivialidades. As palavras que falam de trivialidades ocupam muito espaço, porque estão sempre inchadas do ar do vazio do quotidiano e da normalidade. As palavras que falam de trivialidades flutuam pelo ar e volatilizam o rasto ténue de lágrima que o coração molhado deixou. O meu peito de estilhaços contrai-se sobre os estilhaços e dói de piedade pelo coração grande, e vermelho, e de feltro, e sujo e molhado. Que pena, penso eu… que pena!! Nunca mais será o mesmo, mesmo que eu peça à mãe, eterna enfermeira de corações sujos e outras coisas partidas, despedaçadas, estilhaçadas. Nunca mais será o mesmo. O coração grande e vermelho, sujo da dor dos sonhos irrealizáveis, sonhados por vontade própria, por loucura própria, porque a vida é para ser vivida intensamente, minuto a minuto, como se não houvesse amanhã, ignorando todos os avisos, todos os perigos, a dor que sorri por trás da cortina transparente dos meus sonhos insensatos. A sensatez serve para proteger da dor. A sensatez costuma também proteger-nos da própria vida… por impedir-nos tantas vezes de viver… e proteger-nos da própria vida é insensato, se estamos neste mundo para viver. Se só vivendo se aprende alguma coisa sobre o que é isto de se existir. Ou talvez não. Talvez mesmo vivendo não se aprenda nada. Ou talvez viver não seja a única forma de se perceber o que é isto de existir. Agradeço, mas dispenso as lágrimas que caem hoje dos céus em sintonia com o rasto ténue de lágrima no meu rosto, lá bem junto ao olho. O rasto ténue de lágrima – o único e o pouco que consegue sair, que tem espaço para sair, porque as trivialidades ocupam muito espaço. Porque as lágrimas das dores dos estilhaços, essas têm de ser choradas para dentro, engolidas como sapos viscosos, molhados e escorregadios… e amargos, muito amargos Não conheço arrependimento. Nem sei bem o que isso é, tão raramente me visita. Não estou arrependida. Estou simplesmente. Aqui e agora Doce engano; enquanto o sonho me embalou nos teus braços, enquanto senti o paraíso que é sentir a tua angelical protecção, a minha casa foi a suprema felicidade. Doce engano; se não houvesse sido embalada pelo sonho e olhasse de frente a dura realidade, jamais conheceria, como conheço hoje, os aromas do paraíso. Por um instante, estive lá tão perto… talvez um dia eu consiga lá viver. Para sempre. Não sei para que são estas lágrimas que caem do céu. Quererão elas lavar as minhas lágrimas, levá-las com elas? Pretenderão com isso aliviar a minha solidão? Se a minha solidão é maior que o mundo, igual ao amor que antes ocupava o espaço vazio do buraco que agora tenho no coração. Coração demasiado grande, demasiado vermelho e, por isso, agora sujo. E molhado. Ou talvez não. Mas se o amor que é verdadeiro nunca morre, mesmo com a chuva, mesmo com a sujidade, mesmo com os buracos… E agora? … Dia triste de chuva. Logo eu que gosto de chuva… triste ironia. Dia triste de chuva, mas se eu gosto de chuva… da chuva que cai das nuvens e, sem tempo para mais, é de imediato arrastada pela violência do vento que agita tudo por onde passa, levando pelos ares folhas mortas e restos e lixos esquecidos no chão, obrigando-os a dançar em espirais de remoinhos num qualquer canto sem saída… que desfigura as árvores e os nossos rostos que se contraem involuntariamente… ainda que temporariamente… o vento que, segundo dizem, traz a mudança… traz mesmo a mudança... e a chuva, a purificação. Coração vermelho, grande e sujo… purificado. Nunca mais será o mesmo. (04/03/2009)

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