sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Carta a Tristina - Parte II



Vês inveja ao teu redor, mas és tu a invejosa. Vês más intenções ao teu redor, mas és tu a maldosa. És intolerante para com os demais, porque és intolerante para contigo mesma, porque te odeias a ti própria e depois pensas que são os outros que te odeiam porque são maus. Má és tu. Só tu. Parecem-te estranhos os demais que não actuam como tu achas que deveriam, que saem um pouco da norma, essa que te trás falsa segurança e te tentas em vão encaixar; por isso te odeias tanto. Só quem se odeia se dá a esses intentos. Estranhos os demais que saem um pouco da norma do teu mundinho pequenino, triste e limitado. Mas não é a eles que tu estranhas - é a ti. És tu quem tu não conheces, nunca te viste sem o veneno e sem o lixo.

Limpa-te e verás o quão estranha tu própria és, e perceberás que ainda bem, pois é isso que faz de ti única. 

Queres tão mais do que tens, mas não fazes nada para o conseguir. É preciso que te dêem um estalo na cara para te mexeres, e mesmo assim, rapidamente adormeces de novo. És preguiçosa e cobarde. Mas ao dizer-te isto sei que pouco te ofendes, pouco te picas, apenas sentes auto-comiseração por ser este o teu farto, aguentares contigo própria assim, preguiçosa e cobarde. Deixas-te arrastar pela vida como um peso morto, sem reagires ou tomares grande iniciativa. Provavelmente a pouca que tens já te parece muita. E quando tentas, quando surge a oportunidade e tu tentas, no fim amaldiçoas a experiência, és incapaz de ver a tua luta de forma positiva, de compreender que é com a luta e com as dificuldades que se cresce, e se não vês esse crescimento, então és tu, mais uma vez tu, e a tua míope visão. És uma falhada, uma infeliz falhada; tão jovem ainda e já tão falhada. Procuras amor quando só consegues dar ódio e veneno, mesmo quando julgas que estás a dar amor. Depois espantas-te, quando te dão veneno em retorno.

Queres que acreditem nas mentiras que vendes a teu respeito. Queres que acreditem numa mentira em que também tu gostarias de acreditar e, para que isso de acreditares seja mais fácil, tentas convencer os outros. E achas-te boazinha. E que isso de seres boazinha te dá o direito de ser má. Isso tem um nome; é comummente conhecido por "soncisse". Mas repara; és tão rápida a deixar cair a máscara, que não consegues nunca que ninguém chegue a acreditar na tua mentira por muito tempo. És uma pobre coitada - e pareces tirar algum tipo de prazer mórbido disso.

Carta a Tristina - Parte I


Olá, boa noite.

Espero que estejas melhor. Melhor de quê, perguntas tu. E eu respondo: melhor de seres quem és. Porque tu és doente. E tu perguntas: "Não quererás dizer 'estás doente', em vez de 'és doente'?". E eu respondo que não sei, diz-me tu. Tens a alma doente e não sei se isso se cura, por isso digo que és doente e não que estás doente. E a cada dia, vejo-te mais chafurdar no lamaçal da estupidez, da maldade e da falta de inteligência. Inteligência esta que, já de si, sendo parca, é ainda diminuída pelo teu espírito mesquinho. Porque a bondade só se manifesta quando há inteligência. Porque a bondade manifesta-se sobretudo quando somos agredidos. É em condições limite que se vê o nosso carácter. Talvez seja a tua falta de entendimento das coisas e das pessoas que te faz ver mal em todo o lado, inclusivamente onde não existe. Tu vês mal em todo o lado, porque ele está dentro de ti. Engoliste veneno à nascença, não sei quanto dele, e agora sentes veneno ao teu redor e cuidas que ele lá está, e agrides para te defender. Agrides aqueles e aquilo que a tua visão turvada de veneno te faz ver cobertos de veneno; mas não, és tu. 

O veneno está todo dentro de ti, e em mais lado nenhum. És como o cachorro que corre desalmado para alcançar a própria cauda. Corre, cansa-se, anda em círculos e não chega a lado nenhum. Desgasta-se para nada, por uma presa que não existe, que ele próprio inventou, para ter algo que perseguir, para ter uma meta na sua vida sem metas. Olha para a tua vida. Algum dia terás feito alguma coisa certa? Sim, talvez, das vezes em que foste bondosa. Mas, mesmo nessas alturas, a tua alma cheia de veneno nunca te deixa fazer realmente o bem, mesmo que o queiras fazer. Estás num beco sem saída. És uma infeliz e serás para sempre uma infeliz, porque te congratulas com sentimentos de auto-comiseração, como se te sentisses protegida pela auto-piedade.

Compreende que os monstros que tanto queres combater fora de ti, estão todos dentro de ti, estão todos dentro de ti. Compreende que recebes daquilo que dás. Ao olhares ao teu redor, podes pensar que não, mas o mal nunca trouxe felicidade a ninguém. Quem faz o mal pode até parecer feliz, mas na verdade não o é. Quem faz o bem, mais tarde ou mais cedo será recompensado. Sê nobre por uma vez na vida, uma única vez, sê corajosa e olha para o caos e a sujeira que tens dentro de ti. É normal que sujes tudo por onde passas, estás cheia de lixo dentro de ti. Limpa-te por dentro, torna-te gente. E isso começa por aprenderes que o mal nunca te levará a lado algum. 

domingo, 11 de novembro de 2012

Ingenuidade ou o abalroamento de susceptibilidades...



... ou a escolha de confiar sem saber se se pode ou se deve. Ou a escolha de acreditar no melhor que os outros e o mundo têm para dar... porque quem não acreditar, não verá jamais.

O pecado dos pecados; o mais terrível dos pecados que insisto em cometer, porque sim, porque escolhi. O pecado da ingenuidade é o maior dos pecados porque é perigoso, muito perigoso. De ingenuidade, podemos prejudicar o próximo, porque o ingénuo é míope, não vê, não quer ver, deita por terra a carga que alguns entendem dever carregar... mas o ingénuo não carrega essa carga, umas vezes porque nem sabe bem por onde ela anda, outras vezes porque até sabe onde ela está, mas escolhe aplicar suas energias em outra coisa qualquer, que o não carregue. 

O ingénuo míope, na sua ingenuidade e estupidez, abalroa os demais, negligenciando os seus ais e demais susceptibilidades iguais a ais que se proferem por dentro quando vem o ingénuo a abalroar. 

Temos medo do ingénuo que se descarta das responsabilidades de ceder a susceptibilidades. Que teríamos agora que andar em bicos de pés, nós, felizes ingénuos, que escolhemos não ver a realidade tal como ela é. Que escolhemos ignorá-la na esperança que assim desapareça, que talvez assim se transforme naquilo que não é.  Teríamos de andar em bicos de pés, dizem os susceptíveis.

Ingenuidade perigosa porque deixa livres os nossos verdadeiros intuitos, e não pensa nas consequências. Confia no Universo e na vida que lhe dizem que se agir bem e na melhor das intenções a cada momento, tudo se ajeitará no fim. Não se importa que se lhe vejam as entranhas, as verdadeiras intenções, porque as entende boas e positivas; acha que não tem de se importar com abalroar. Susceptibilidades, abalroar susceptibilidades. 

Superficialidade é não ceder a susceptibilidades. Ingenuidade é superficialidade. Acham os susceptíveis.

Coitados dos susceptíveis, que precisam de não ingénuos cuidando das suas susceptibilidades... coitados dos susceptíveis, que necessitam que os outros parem no seu percurso para lhes acudir nas feridas que o próprio ego, inchado de orgulhos e não-pecados afins, lhes infligiu, ao ver o ingénuo passar, ignorante intencional das susceptibilidades provocadas pela felicidade ingénua dos ingénuos e pelo ego inchado dos susceptíveis, que se deixou ferir porque quis ter um motivo para se sentir mal, porque se sente mais seguro se se sentir mal. É sempre mais seguro ser-se a vítima. 

Não-ingénuos são os que ouvem tudo e escutam tudo, mesmo os egos inchados; não-ingénuos crêem na desgraça e na maldade, e caem na armadilha quando as susceptibilidades alheias começam a manifestar-se. Resolvem dar-lhe crédito porque têm medo, porque também eles são susceptíveis e capazes de ferir para não sentir e não ouvir as suas próprias susceptibilidades, julgando o outro responsável pelo que eles próprios escolhem sentir. Sacudindo a água do capote do ego, culpando os outros porque o seu ego foi ferido, como se não tivesse o dever e a responsabilidade de controlar o seu próprio ego e de ficar feliz por ver os outros felizes ao invés de se sentir ofendido.

Quem serão, então, os verdadeiros ingénuos?

domingo, 4 de novembro de 2012

Ao contrário


Hoje sou eu que me viro contra mim; é quase sempre assim, e com todos nós, não apenas comigo, somos quase sempre nós a virar-nos contra nós. Hoje estou assim, do avesso; tenho o coração na boca a bater, a bater muito. Mas não corri, sequer me mexi, mas ele bate, como se voltasse da maratona. Quanto mais sossego, mais ele se agita, quanto mais me acalmo, mais ele palpita, e eu não percebo porquê. Talvez funcione ao retardado, como os relógios que ficam para trás na acção de mudar a hora pelo Outono. Talvez se agite pelos momentos passados em que corri, talvez se agite pelos momentos em que outrora fiz e aconteci. Talvez se tenha esquecido de bater então, nesses tempos, e tenha de bater agora por tudo o que se esqueceu de bater. 

Trago o estômago no pescoço, a par com o coração na boca. Algo ficou pelo caminho; algo que deveria descer e não desceu, ou algo que deveria subir e não subiu. Aqui ficou, e agora não respiro bem, os pulmões não se enchem se não empurrar o ar, se não o puxar com um suspiro. 

E se me esquecer? Se me esquecer de mim e do bater descompassado, e mais do que por aqui me ficou entalado... talvez o esquecimento, e o adormecer me faça perder do descompasso generalizado do corpo que procura vingança por algo que não lhe fiz. 

Talvez por isso o sono me invada a todos os momentos e talvez por isso eu teime em não ceder e durma ainda menos, numa atitude de rebeldia, como quem diz aqui quem manda sou eu. O corpo que escolhe desligar-se e esquecer-se do mundo e da vida, como se lhe não apetecesse, como se eu lhe houvesse pedido em demasia, por algo que não lhe apetecia fazer. 

É doce ceder à chantagem que o corpo faz quando pede por descanso; é difícil resistir-lhe e à sua vontade de sucumbir. Não, quem aqui manda não sou eu, que as minhas forças são tão mais frágeis do que os mandos e desmandos de um corpo que tem vontade absolutamente própria e que deita por terra toda e qualquer resistência que um qualquer livre-arbítrio possa tentar impor-lhe...

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Magia


 Fada ou bruxa? Qual a grande diferença? Talvez a mesma que existe entre o bem e o mal. E existe, de facto, essa diferença? Todos nós transportamos, por dentro, um pedaço de branco e um pedaço de negro. Há o que desperte em nós o negro e há o que desperte em nós o branco, porém, há de nós aqueles que deixam que o negro desperte com mais facilidade e outros que deixam ser o branco a fazê-lo, assim, naturalmente, sem mais nada, porque uns são mais de certa maneira e outros são mais de outra maneira, pois bem. E eu? Bruxa ou fada? Olho-me ao espelho e vejo que a bruxa cresce ao mesmo tempo que a fada. Que a fada precisa da bruxa para ser forte, mas que a bruxa sai fora de controlo sem a fada. E é estúpida, e só faz porcaria, e é esperta como os cães, mas falta-lhe inteligência, à bruxa, que a verdadeira inteligência vem da bondade, já lá dizia o outro e com razão. Tudo o resto é esperteza apenas e tão só; mas a fada sem a bruxa esquece-se que o mundo está cheio de gente cheia de más intenções e que é preciso aprender a pensar como a gente má, para contra ela se criar um escudo belo, invisível, suave e subtil, que nem se vê, que nem se sabe existir, mas que está lá. Por vezes apetece-me ser apenas bruxa; outras, apetece-me ser apenas fada, mas é na junção das duas que está a minha verdade. Olho para mim e desconheço-me; antes não havia bruxa, mas também não havia fada. Se quero uma, preciso da outra, elas alimentam-se e interdependem. 

A bruxa enfraquece a fada com a sua estupidez. E a fada enfraquece-se a ela mesma com o seu esquecimento. E alheamento, e mergulhamento num mundo de fadas, mas não fui feita para viver num mundo de fadas. Fui feita para chafurdar na lama das coisas que às vezes cheiram mal, e aprender a fazê-lo sem perder-me de mim e da dignidade. Chafurdar na lama é bom porque encontramo-nos com monstros e os monstros têm sempre coisas boas para nos ensinar, e eu aprendo coisas boas com os monstros, mas depois apetece-me ir embora, que me sinto suja, e vou, embora.

Tantas vezes penso como seria mais tranquila a minha vida eu fosse apenas fada, mas depois penso que quem anda por aí com magia nunca é apenas fada, pois faz coisas que não se vêm por aí e o mundo tem medo das coisas que nunca viu, não compreende e não percebe e ataca, como fazem os que vivem dotados de irracionalidade. Às vezes quero descansar, mas não posso, a lama chama por mim, e eu vou; com o gel de banho atrás, contudo. 

Porque foras da lei são tanto as fadas como as bruxas e rasgar pelo mundo os caminhos menos percorridos necessita de tanta força que o bem por si e o mal por si, não têm força... só aliando as suas energias se consegue conquistar o mundo...

quinta-feira, 1 de novembro de 2012


Um dia, apanha-se o comboio. Durante muito tempo, caminhou-se a pé. Doíam os pés, faziam-se bolhas e feridas de toda a espécie. Mas um dia, apanha-se o comboio. Chega uma altura em que temos de correr, porque o comboio já vai em andamento; na vida, todos os comboios já vão em andamento, e antes de se os apanhar, é preciso correr, correr muito. Por vezes, é preciso correr depois de caminhar, quando já se está ferido e cansado, mas se se correr, às vezes, apanha-se o comboio. E depois olha-se para a paisagem que vai ficando para trás, engolida pelas linhas do horizonte, e vai-se vendo o sentido, vai-se percebendo o modo como tudo converge, a forma como tudo se encaixa num quadro maior, a forma como umas coisas se seguem às outras. Quando se apanha o comboio, os solavancos são suaves, comparados com o chão duro, frio e irregular, cheio de arestas cortantes, que nos serviu de sustentação em anteriores momentos. Ainda assim, ao cabo de uns tempos de comboio, os próprios solavancos começam a parecer excessivos, deixamo-nos embalar pela constância do percurso, assim como pela sua previsibilidade e acabamos a elevar os padrões de exigência. Somos estranhos, nós seres humanos, mas bem me parece não ser esta a primeira vez que por aqui faço tal constatação. 

De comboio, tudo flui, a paisagem passa rápida pelos vidros, não deixando a vista deter-se em demasia naquilo que não é absolutamente essencial. Sobram energias para pensar no futuro e o objectivo mais próximo deixa de ser apanhar o comboio, começamos a lembrar-nos de todos os projectos que adiámos enquanto o chão irregular e cheio de arestas cortantes apenas nos deixava sonhar com o comboio... e nessa altura, pensamos que perdemos tanto tempo a desejar apenas algo tão básico como o comboio, que a aflição vem, a sensação de que é preciso recuperar o tempo perdido, a sensação de que, mesmo parados, dentro do comboio em movimento, precisamos correr, acrescentar movimento ao movimento. 

E o comboio ganha velocidade e começamos a esquecer-nos de como era antes do comboio, começa a parecer-nos inacreditável que algum dia tivéssemos realmente caminhado de pés descalços no chão, e questionamo-nos "como foi mesmo" que apanhámos o comboio, já não conseguimos recuperar os detalhes...

Que o comboio acelere, que eu deite cada vez mais lenha para a sua caldeira e faça o que estiver ao meu alcance para lhe aumentar a velocidade, numa tentativa, é certo, de não atropelar ninguém, mas também de não só não me atrasar ainda mais, mas mais que isso, de fazer agora o que não pude fazer antes... antes que seja tarde de mais...

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Sonhos derramados

Porque os sonhos às vezes derramam, vasam, entornam por fora, quando são demasiado grandes, tão grandes que não se os consegue suportar. Quando ao invés de nos obrigarem a andar para a frente, nos esborracham, paralisam, imobilizam. Quando são tão belos que preferimos mudar-nos para lá, de armas e bagagens, abrindo mão de uma vida que nos surge sem interesse, perto das possibilidades ilimitadas que um sonho oferece... esquecer que o mundo existe, com os seus reais limites... e passar para um mundo onde os limites somos nós quem os inventa... que possibilidade tentadora, a de se brincar de ser Deus!

Pois que se flutue nos sonhos derramados, que quando são assim tão grandes e derramam, acordam-nos no meio do seu jorro furioso, o dia em que, de voar tão alto, acabamos a cair desamparados no chão... acordamos, acorda-nos o chão, acorda-nos o frio da realidade... flutuemos então, que um sonho nunca é em vão, salvemo-nos, que só se afoga em sonhos quem quer... Flutuemos nos sonhos enquanto contemplamos o mundo real e auscultamos onde cabem os nossos sonhos... são os sonhos que nos salvam, não que nos afogam; a foice quem a carrega é a realidade e o mundo, são os sonhos que nos desenham a armadura com que dela nos havemos de defender...

sábado, 27 de outubro de 2012

I'm scared

The future is coming. And the future is not as I expected. 

Está a tomar feitios que não lhe conhecia. Não que eu conhecesse o futuro, mas tinha dele uma ideia. Às vezes, quando o futuro chegou, eu percebi que já o conhecia, foi bom, é mais fácil, já se espera, tudo flui melhor, adaptamo-nos melhor. Este agora, não lhe conheço o rosto... não é que não desconfiasse, mas não me apetecia que fosse assim... mas se calhar é melhor que seja assim. Normalmente, é sempre melhor que seja assim. Da maneira que é, acabamos a perceber que foi melhor. É verdade que nem sempre percebemos isso, mas acho que é muitas vezes assim, quase sempre. É melhor que seja assim. Tenho a certeza.

Mas dá medo. Mais que não seja, porque o corpo não gosta. O corpo não gosta do futuro, porque o futuro empurra as pessoas para a frente, e o corpo não gosta que o empurrem. Dói-lhe, agita-se, o coração bate muito depressa e o corpo enche-se de coisas que fluem pelo corpo fora, pela corrente sanguínea; os venenos segregados pelo coração a bater muito, contaminam cada músculo, deixando-o tenso e magoável. E eu também fico magoável, de equilíbrio intermo e homeostasia ameaçados.

O corpo e a mente não gostaram do futuro há uns tempos. Só a alma gostou, a alma regozija-se ainda agora, a alma cresceu, desenvolveu-se... porque será que o corpo não quer? O corpo que continua contraído de dor, batalhando para voltar a ser como era. Porque oferece ele tanta resistência? Porque se alvoroça a química interna? Se a alma cresce, o corpo podia tão bem colaborar... e não virar-se contra o guerreiro que luta todos os dias a dura batalha da adaptação às circunstâncias em permanente mutação, sobretudo quando o guerreiro não é assim lá muito de guerras dessas, dessas pelo menos, dessas que mais se parecem com furacões, arrancando do sítio o mais elementar dos objectos, a escova de dentes, o garrafão da água, e recolocando tudo noutro sítio qualquer, um sítio daqueles que a mente insiste em não se recordar.

Hajam desafios, que são eles que alimentam a alma, mas convença-se o corpo a acompanhar os desafios, faça-se o corpo perceber que a inércia é para ser vencida, caso contrário de nada servirá, de nada lhe servirá a tal da inércia, só para ajudar ao andamento em marcha à ré...

domingo, 23 de setembro de 2012

Oh no, not again...

... mas desta vez vou eu fazê-lo diferente. Que me fartei. Andava sempre farta e agora fartei-me de vez, fartei-me de tanto estar farta. Agora será como eu quero que seja, e adeus. Por agora, prefiro o adeus, que as alternativas que se me apresentam, ainda que não reúnam tudo para serem as ideais, pois certamente se aproximam mais do que deve ser, ao contrário do que tantas vezes pensei que seria o que devia ser. Dei, dei, dei, chegou a hora de receber. Quem não estiver pronto para me dar do mesmo que eu lhe dei, pois bem, então que se vá andando. Vira-se a página, fecha-se o livro. Pelo menos por agora, mas para sempre se a configuração geral da coisa permanecer igual de aspecto ao que agora se encontra. Vontade de bater com a porta, de ir embora, de fazer sofrer. Mas não, que isso não traz bom karma nem boas energias, assim tenho aprendido que é o que deve ser e assim, cada vez mais, será como farei. Suave, doce, sem nunca perder a razão. Repito, sem nunca, jamais em tempo algum perder a razão. Que as coisas mais cruéis é assim mesmo que se fazem: quando não se tem a intenção de se ser cruel, aliás quando a verdadeira intenção é a mais distante possível da de se ser cruel. Não quero ser cruel; aprendi a ser cruel, cada vez mais sei ser cruel e quanto mais o sei, menos o desejo ser. Não, não serei cruel. Se for para ser, que seja, mas sem que eu gaste as minhas energias para continuar a tentar, em vão, movimentar os cordelinhos do destino,  esse que parece sempre tão obstinado, esse que por mais que nos iludamos ao pensarmos ser seus donos e senhores, na verdade não passamos apenas de escravos ainda mais escravos do que os outros que não julgam ser seus donos e senhores. Escravos voluntários, porque o aceitamos sem contestação, e assim parece que somos nós que queremos, mas na verdade apenas nos conformamos; somos demasiado pequenos para movimentar sejam que cordelinhos forem. Então seja. Faça-se a sua vontade, a do destino, cumpra-se ele. E eu, que nada posso fazer, posso ainda escolher o momento em que foram excedidos todos os parâmetros do que é razoável e de bom senso, e também posso escolher pôr um ponto final, mas um ponto final com parágrafo e fim de texto. Que é para não correr o risco que o será que é mesmo para ser, não se volte a transformar em sim, é para ser, mas não isso, outra coisa. É para ser, mas é outra coisa. Permita o Universo que me liberte, que eu siga um caminho mais condicente com o meu próprio merecimento. Não sei que demónios andei eu a fazer todo este tempo, que tanta vez me tentei libertar e não fui capaz. À actual pergunta será que é agora que é para ser, eu respondo sim, porque está na minha mão apenas que seja para ser, pois na verdade o que é mesmo, é que não seja para ser.


quinta-feira, 21 de junho de 2012

Diferentemente impressionada


Penso... se há meses atrás visse o mundo por estes olhos que agora vejo... qual seria a minha reacção? A mesma que tenho agora? Certamente que não, porque sou outra agora. Mudo de personalidade e de olhos a cada três meses, mas consigo perceber isso apenas muito tempo depois, quando olho para trás e me dou conta do caminho percorrido. Há tempos atrás ficaria impressionada, estupefacta, agora não. Passei anos nesse estado de estupefacção, mas a verdade é que, enquanto esse mesmo estado não passou e a minha alma não sossegou, a estupefacção nunca foi verdadeira, embora se fizesse sentir intensa.Nunca a realidade reflectiu o meu estado interior de estupefacção, que se manifestava a cada pequena coisa que se via, ou que eu via e mais ninguém. De tão minúsculas eram as mudanças, mas eu impressionava-me. Estupefactava-me. Mais ninguém via, só eu. E quando as palavras saíam da minha boca, ouvia-me louca. E os outros também. Que demónios estás tu a dizer, que demónios estou eu a dizer. Mas agora vê-se. E já ninguém duvida. Não se vê muito bem, mas há indícios. Suficientes para que já se vejam. Já vejam alguns. E duvidem já nenhuns.

Da minha loucura, não sei, talvez seja maior agora que alastrou ao resto do mundo. Mas tudo quer ser como eu sempre soube que seria e já não estou estupefacta. Permaneço em silêncio, procurando enxotar as expectativas em relação ao que está por vir. Quando elas se elevam, chuto-as para o fundo novamente. Que é quando elas andam lá por baixo que as coisas acontecem. E quero que aconteçam, mas que aconteçam como eu quero, como me disseram que seria. Como deve ser, com tudo no sítio, com tudo a encaixar e a bater certo no lugar. Acontecem agora tal como se me anunciaram um dia, e eu cuidei que estava louca. Mas se estava, era de uma loucura terrível, pois obtém correspondência visível, naquilo a que chamamos realidade. Na verdade, há muito quem vem sendo assim, mas só no momento em que chegamos ao topo da montanha conseguimos perceber a verdadeira fisionomia do terreno que antes deslizava por baixo dos nossos pés.

E vejo, que já há muito é assim, numa dimensão que eu própria desconhecia. Preciso que as coisas aconteçam para perceber, para me perceber, para perceber que sou e que voz é esta que fala dentro da minha mente... ou, pelo menos, perceber mais um pouco... só mais um pouco...

Angústia


Por que motivo te instalas tu, precisamente nos momentos em que eu esperava que te fosses de vez? Parece existir uma qualquer necessidade em mim de me massacrar permanentemente... ou serão apenas os químicos, daqueles que não são os seres humanos a produzir nos laboratórios, mas sim o próprio corpo que fabrica, nos seus laboratórios feitos de células e coisas cuja compreensão nos escapa... que raio de resistência é esta que ofereço a estar em paz?

Angústia... ou terás tu razão de ser? Ou a paz é apenas aparente, já que neste mundo a paz não passa de simples miragem, pois onde anda um ser humano, cuja mente se baseia em conflitos, anda o conflito também... a paz não existe, não neste mundo, é daquelas coisas que temos de pensar que existem para a nossa existência fazer sentido, mas na realidade não existe, existe apenas a sua busca contínua, permanente e incessante, o engano ou não. 

Pergunto-me se terás tu razão de ser, ó angústia. Olho ao redor e vejo alguns motivos objectivos. Toda a gente os tem, por mais que lute por os não ter, tenho-os também. Basta ver o mundo em que vivemos, e angústia será muito pouco. Mas não, não é isso. Às vezes é, um pouco. Uma inquietação. Mas não é só isso.

A cada ano, tudo muda. Há coisas novas que querem chegar. Olho para a minha vida, e vejo algo diferente; já não é o que era há uns meses atrás. Melhor ou pior? Apenas o tempo dirá. Prevê-se melhor. Talvez seja esse o porquê da angústia. Quanto tempo esperando que as coisas fossem como parecem estar a querer ser. E se não for para serem? E se ainda não for agora? E se, mais uma vez, o futuro for adiado para tempo indeterminado? Pior; e se for demasiado difícil, e se o peso for demasiado para que eu consiga suportar? 

Eu que não tinha medo; às vezes não tenho medo, de nada. Talvez seja inconsciente, mas às vezes não tenho medo de nada. Talvez seja por estar apenas esquecida das coisas que me fazem medo, talvez seja porque aprendi a fazer de conta que não tenho medo, a olhar para as coisas que me fazem medo e fazer de conta que não fazem. 

Mas agora sinto medo. Eu que já me tinha esquecido de como era sentir medo. O medo é uma coisa que só se sente quando se tem coisas a perder. Mas, desde que se nasça, tem-se sempre alguma coisa a perder, ainda que por vezes nos enganemos e pensemos que não. Tem-se  sempre algo a perder, então o medo persegue-nos sempre. Não me parece justo. Sei que a consciência, uma mente iluminada, são boas alternativas ao medo, mas... a mente vai-se iluminando aos poucos, e as angústias e os medos assaltam-nos de repente, sem dar tempo para que a mente se ilumine. E o medo do escuro é instintivo. Porque não vemos por onde vamos e podemos tropeçar. 

Tenho medo de tropeçar. Tropeçar no escuro. Tenho medo, mas não muito. Acho eu. Sim, porque às vezes só sabemos o medo que tínhamos depois de tropeçarmos. Tenho medo que se repitam coisas que já vi repetirem-se vezes de mais. Acho eu. Porque, se pensar bem, percebo que tenho medo, mas não muito. Só um pouco; afinal de contas, tantas vezes tropecei e caí, que tive de me levantar, e foi assim que cheguei até aqui. Se me levantei então, nada me impede de me levantar agora.

Mas não me apetecia. É que não me apetecia mesmo. Cair e levantar, outra vez. Porque me irritam as coisas que se repetem uma e outra e mais outra vez, sem mudar. Irrita-me. Tenho medo, porque me irrita cair. É que não me apetece. Mesmo.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

And now... what?

A mente surge vazia... não que o esteja, há lá coisas dentro, mas surge-me vazia. Não quer mergulhar profundo como de costume, tem medo. Tem daquele medo que nunca tem, que anda sempre a dizer que nunca tem, que é o de mergulhar profundo. Porque quando mergulha profundo, ouve palavras horríveis... não a seu respeito, mas a respeito de quem não quer odiar, mas odeia... e esforça-se por compreender o lado de lá, mas sente a desarmonia... uma mente que sempre nadou como uma sereia... é agora desafiada a caminhar pelos trilhos do limite... uma voz ergue-se e diz: o Amor vencerá. Basta amar... mas amar às vezes é tão difícil... às vezes para amar é preciso odiar primeiro... mas porquê? Parecia tudo errado, aos demais parece tudo errado... mas mesmo assim o meu coração diz estar certo... e já que ninguém acredita no coração, pois pasme-se; a realidade diz o mesmo...

Amor e ódio... duas faces da mesma moeda... quanto maior o amor, maior o ódio... e quanto maior o ódio, maior o amor depois... só se odeia aquilo que se ama...

Estou tão cansada... como queria ver a paisagem ao cimo da subida, no topo da colina... sei que é bela, disseram-me que era, mais que isso, sinto que é bela!! Mas preciso vê-la...

Ou acabarei como os demais... a duvidar sem sequer ter visto ainda o que quer que fosse... (21/06/2010)

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Chegada

Trilhei caminhos de espinhos para agora aqui chegar... e do limite das forças observo... não fosse o calor da chegada sentir-se já, ou não teria mais ânimo em mim para prolongar a provação que a vida decidiu estar reservada à minha alma... guiada por vozes desconhecidas, porém minhas, apenas minhas, cega de obediência, deixei os espinhos do caminho fustigarem-me a alma, desafiando a sua confiança, nem eu mesma sei bem em quê... para trás fica apenas a memória da cegueira e da ignorância... é preciso chegar para se perceber onde nos dirigíamos... que estranha força é esta que me move, perante a qual me sinto tantas vezes impotente, uma escrava submissa da minha própria vontade... estou a chegar... repito-o de manso ainda... estou a chegar... estarei mesmo? Ou estarei, mais uma vez, aparentemente enganada? Mais um espinho, ainda talvez, só mais um? ... Os espinhos, de hora em diante parecem ser aqueles por que sempre esperei... mas tinha de chegar, precisava enfrentá-los... e parar de perder tempo com os espinhos dos que eram inesperados e dos que eram desconhecidos, que me desorientavam... estes agora já tenho as armas para lhes fazer frente... doem-me também, mas desafiam-me e engrandecem-me por outro lado... Tinha de chegar e não conseguia, mas finalmente, cheguei... sente-se... o calor da chegada, sente-se já... é ela, a chegada... carreguem agora as circunstâncias o peso do meu corpo e da minha alma exaustos da batalha... fiz a minha parte, é tempo de recompensa.(22/06/210)

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

I'm not impressed anymore



Am I no longer a philosopher? Have I ever been one? Everyone is, even when you're not impressed anymore.

Que os sentimentos intensos tolhem-nos as vistas; as impressionações anulam-se a elas próprias por esse não permitir que se veja como deve ser e que nos impressionemos como deve ser. Deve ser isso; agora vejo e estou como deve ser impressionada, o que tem a aparência de não estar impressionada - é sempre assim neste Universo. As coisas que realmente são, nunca parecem muito que são, e as coisas que não são nada tantas vezes parecem que são mesmo. Os seres têm de continuar a ter razão de ser, e não existe razão de ser se não existir não saber. Por isso as coisas não são o que parecem e o mundo é ilusão - ideia sobejamente manifestada por estas bandas, tanto que enjoa já, farta estou de estar permanentemente manifestando-a. Mude-se o disco. Continuando. Talvez não pareça estar impressionada, ou não me sinta particularmente impressionada, por estar tão profundamente impressionada. Mas disso eu não posso saber, porque estou dentro de mim e dentro de nós nunca se vêm bem as coisas. Portanto, não sei bem como estou. Mas mesmo estando dentro de mim mesma, às vezes sei como estou. Ou penso que sei, porque o outro dizia que só sabia que nada sabia, e eu se calhar vou pelo mesmo caminho.

Quanto mais se sabe e percebe mais se sabe que nada se sabe, o que é bom, isso de se ter a noção do quanto se é ignorante; e mesmo assim não temos, pois tudo é coisa que se não abarca. Só sabemos do que falta se percebermos dos fins e dos limites. Que sabemos nós dos limites disto onde estamos. Nada. Então, não só não podemos saber, como também não podemos saber que nada sabemos. Oh vida esta.

I'm not impressed anymore. Mas porquê? O que mudou? Posso pensar que sei mas não sei. Mas sei que o caro leitor já se deve estar a irritar com a minha pessoa. Não sei. Voltei, simplesmente voltei. Ou não, nunca se volta, nunca se traça o mesmo caminho duas vezes, acho. Quando se volta nunca se volta a de onde se partiu. Saber do porquê de eu não estar mais impressionada é coisa que se deve ler ali ao lado, onde falo do fluir da corrente da vida que é a minha. Que aqui não me apetece se não divagar, que foi para isto que criei um blog chamado impressionantes impressões, divagar é que é bom. Bem sei que nem sempre divago, às vezes lá tenho rumo, nem todos os posts deste blog são de natureza filosófico/descritiva. Às vezes falo de mim e reflicto nas minhas impressionãncias.  Ou serão impressionâncias? Não sei. É que eu não sei.


Alma Lavada




Extraordinária paisagem essa que se consegue quando se olha ao redor e se vêm apenas casinhas baixas, construídas de pedras umas em cima das outras e ao longe o pinhal, o pinhal e mais pinhal. Uma cadelita e os seus dois filhotes dormem, mais além, uma sesta embalada pelo frio que se faz sentir; o frio que parece ser mais frio ainda, pelo meio das ruas apertadas de pedras e mais pedras. E pelo meio da vegetação verde húmido e brilhante... o frio parece mais frio. Mas eu não o sinto, ou se o sinto, gosto de o sentir. E vendo-me olhá-la com uma expressão amistosa, a bichinha dirige-se a mim, coxinha e tudo, mas feliz, na expectativa do mimo, que não se faz esperar. Acompanhada pelos pequenitos, que a rodeiam por todos os lados, pulando e saltando alegremente, a mãe vira a barriga para cima à espera de umas festinhas na barriguinha, magra, mas bem alimentada. E a festinha não se faz esperar. Cuidado que não os conheces, podem ter pulgas... por que motivo estas advertências nunca me demoveram? Tempos houve em que vivia aprisionada pela cautela... quase parecia que era apenas eu quem estava certa e todo o resto do mundo enganado. A cautela é, contudo, como tudo neste mundo, pois nada existe que seja absoluto nesta existência fragmentada... e escraviza como tudo o resto que se não tem em boa conta e boa medida. Escraviza, pois nada neste mundo permanece na mesma muito tempo e a cautela, como tudo, azeda e transforma-se em medo de viver. E o único verdadeiro medo de um ser humano é o medo de si próprio. E o medo de viver é o medo que se tem de si próprio.


Mas nas ondas do mar revolto e pelo meio das pulgas saltitantes dos cães, dos gatos e por aí, a cautela não me visitava a alma, dava-me tréguas por um instante e eu, por um instante, vivia e gostava de viver... e sentia que, algures, existiria alguém para além da cautela, alguém por descobrir, alguém que levaria muito a descobrir, mas alguém por quem eu procurei sempre, porque sempre senti, alguém a quem eu nunca desisti de procurar... e como isso de procurar e não achar é só nas histórias... a realidade foi lenta, porém, generosa para comigo.

O caminho que se seguiu foi cheio de surpresas, que só não foram verdadeiras surpresas porque eu já as conhecia de outras andanças, já as sabia por ali, mas transformaram-se em surpresas pelo amontoado de dias que separava esta minha visita de ontem da última vez que eu por ali lançara os meus olhares.

O burro comia esfomeadamente; apesar das visitas fixarem nele os seus olhares curiosos, limitava-se a fixar as visitas com a curiosidade dividida entre os visitantes e a fome devoradora, o seu maxilar inferior descrevendo círculos, os seus olhos pretos e redondos, ladeados de pestanas longas, como as de uma princesa, fixos em nós, mas nunca desistindo do repasto.

Na porta seguinte, uns brancos outros dourados, ao contrário do burro, largaram o que fosse que estavam a fazer e vieram espreitar os que à sua porta se assomavam para espreitar, não propriamente num acto de cortesia, mas para avaliarem a possibilidade de uma fuga, provavelmente porque desde aquele filme que se chamava “A Fuga das Galinhas” os galináceos não pensem em outra coisa que não experimentar a mesma aventura e a mesma emoção

Sigo pelo velho trilho e deparo com dois lindos olhos vivos, verdes, fixando-me, esbugalhados, de prontidão para qualquer emergência, ou até, para a fuga antes sequer que tal se justificasse... e, ignorando os meus “bchi, bchi, bchi”, foge-me, sem me dar qualquer hipótese sequer de me aperceber de mais pormenores do seu focinhito fofo.

Não há tempo para perseguir o gato (por ali já todos estão habituados e ver-me nessas figuras), o avô está lá em baixo e eu preciso perguntar-lhe se está melhor da queimadura na perna que fez na fogueira lá de casa.

O avô e toda a família, nas lides agrícolas... e a cabra contemplando a agitação provocada pelo fluxo mais intenso que o habitual de personalidades menos familiares ao território dela... olha para mim, cabrita. E ela olha, e vem até na minha direcção. “As cabras são malucas”, disseram-me outrora e cheguei mesmo a ficar com receio de que viesse assim, lampeira, para fazer algum disparate, mas... esse medo nunca vence nestas alturas e acabei a fazer-lhe mimos, embora tivesse que enfrentar a desilusão do animal, que estava cheio de esperança que eu lhe tivesse levado uma folhita de covinha...

Deambulei por ali, pelo terreno que o meu tio adquiriu recentemente (“Eu sou assim”, diz ele, em tom fatalista), fui indo, fui indo até chegar novamente perto da casa e avistar novamente o gatinho arisco, que logo fugiu mal os seus olhitos cruzaram os meus.

Antes havíamos feito uma incursão por caminhos acidentados, com porções da rocha mãe entrevendo-se pelas descontinuidades da terra, o pobre carro familiar, qual “Land Rover” no Lisboa-Dakar, debatendo-se para chegar ao nosso destino: o laranjal, diria eu, os poços, chamam-lhe eles. Poços, não sei quantos são, sei que eu até agora só lá vi um, com uma nora, onde eu gosto de brincar às mulas e ver os baldinhos subir e descer, apanhando e largando água. Mas desta vez, a missão era séria: resgatar as laranjas que ainda restavam depois de muitas terem sido queimadas pela geada... e mesmo assim, não conseguimos carregá-las todas: uma grade de cervejas velha e poeirenta encheu-se de laranjas, quase até caírem e rebolarem pelo chão... mas tínhamos ainda a minha mala, que eu levara a tiracolo e passara todo o caminho a perguntar-me o porquê de a ter levado, ali nem havia rede, nem o telemóvel me serviria do que fosse... a minha mala encheu-se de laranjas e ainda consegui perder uma pelo caminho; tive de correr atrás dela para que se não me escapulisse e fosse para algum sítio daqueles que realmente dá muito trabalho para lá chegar...

Deixando a família para trás, caminhando no regresso, surge uma ponte... com um rio a passar por baixo... e já que paramos para contemplar o rio, por que não descer até lá? Descemos. Só tem interesse se chegarmos mesmo perto da água. E chegámos. O meu pai vai sempre mandar pedrinhas, daquelas lisinhas e achatadas, procurando vê-las chegar à outra margem, deixando atrás de si uma fila indiana de circunferências desenhadas na superfície da água. Acho que, pela primeira vez, tive a coragem de tentar imitá-lo e de enfrentar o total fracasso: as pedras saindo das minhas mãos, pareciam transformar-se em calhaus enormes e pesados que faziam um grande "BOLNC" na água e não percorriam mais do que 1/10 do percurso necessário para chegar ao outro lado, e não faziam mais do que uma circunferência enjilhada e distorcida, salpicada pelas gotas de água levantadas no mergulho da pedra... será que eu algum dia vou conseguir fazê-las chegar, com harmonia, ao outro lado?



(Janeiro de 2008)

Eu tenho um coração vermelho


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Eu tenho um coração vermelho, de feltro. Daqueles que as pessoas fazem em casa, manualmente, e depois vendem aqui e ali. Não costumo gostar do feltro… basta uns tempos nos bolsos para ficar com mau aspecto. E se calhar, pensando bem, até gosto do feltro, porque gosto de coisas velhas e cansadas, e o feltro, ao fim de pouco tempo, parece assim, velho e cansado, como eu gosto… gosto de coisas velhas e cansadas, acho sempre que devem ter imensas histórias para contar. Ou talvez não goste do feltro, porque esse aspecto raramente se deve às marcas de tempo e acontecimentos em quantidade. Hoje o meu coração, grande e vermelho, caiu ao chão. E o chão estava sujo e molhado, porque choveu toda a noite. Choveu e fez vento, muito vento. E o chão ficou molhado, e quando o meu coração grande e vermelho caiu, ficou sujo. Na parte de trás… Sujou-se. E molhou-se também. Encostei-o à face e estava molhado, molhou-me a cara, um pouco, junto ao olho, como se fosse o rasto ténue de uma lágrima. Ao meu redor, pessoas. Pessoas que nada sabem a respeito do meu coração, que, indiferentes, seguem viagem comentando trivialidades, banalidades. Elas viram, mas não repararam, não perceberam que o meu coração caiu no chão molhado e se sujou. Ou se repararam, acharam que não era importante. O mais importante do mundo são os reclames da televisão, o trabalho que é horrível e as casas para pagar. As casas para pagar. As pessoas ao meu redor tagarelam sem cessar. Nada sabem a respeito do meu coração, vermelho e grande, de feltro, novo, mas com aspecto velho e cansado. Nada sabem e eu também não digo. Não há espaço para palavras de outra natureza, não há espaço para sentimentos. Não há espaço para as palavras que falam dos sentimentos no meio das palavras que falam de trivialidades. As palavras que falam de trivialidades ocupam muito espaço, porque estão sempre inchadas do ar do vazio do quotidiano e da normalidade. As palavras que falam de trivialidades flutuam pelo ar e volatilizam o rasto ténue de lágrima que o coração molhado deixou. O meu peito de estilhaços contrai-se sobre os estilhaços e dói de piedade pelo coração grande, e vermelho, e de feltro, e sujo e molhado. Que pena, penso eu… que pena!! Nunca mais será o mesmo, mesmo que eu peça à mãe, eterna enfermeira de corações sujos e outras coisas partidas, despedaçadas, estilhaçadas. Nunca mais será o mesmo. O coração grande e vermelho, sujo da dor dos sonhos irrealizáveis, sonhados por vontade própria, por loucura própria, porque a vida é para ser vivida intensamente, minuto a minuto, como se não houvesse amanhã, ignorando todos os avisos, todos os perigos, a dor que sorri por trás da cortina transparente dos meus sonhos insensatos. A sensatez serve para proteger da dor. A sensatez costuma também proteger-nos da própria vida… por impedir-nos tantas vezes de viver… e proteger-nos da própria vida é insensato, se estamos neste mundo para viver. Se só vivendo se aprende alguma coisa sobre o que é isto de se existir. Ou talvez não. Talvez mesmo vivendo não se aprenda nada. Ou talvez viver não seja a única forma de se perceber o que é isto de existir. Agradeço, mas dispenso as lágrimas que caem hoje dos céus em sintonia com o rasto ténue de lágrima no meu rosto, lá bem junto ao olho. O rasto ténue de lágrima – o único e o pouco que consegue sair, que tem espaço para sair, porque as trivialidades ocupam muito espaço. Porque as lágrimas das dores dos estilhaços, essas têm de ser choradas para dentro, engolidas como sapos viscosos, molhados e escorregadios… e amargos, muito amargos Não conheço arrependimento. Nem sei bem o que isso é, tão raramente me visita. Não estou arrependida. Estou simplesmente. Aqui e agora Doce engano; enquanto o sonho me embalou nos teus braços, enquanto senti o paraíso que é sentir a tua angelical protecção, a minha casa foi a suprema felicidade. Doce engano; se não houvesse sido embalada pelo sonho e olhasse de frente a dura realidade, jamais conheceria, como conheço hoje, os aromas do paraíso. Por um instante, estive lá tão perto… talvez um dia eu consiga lá viver. Para sempre. Não sei para que são estas lágrimas que caem do céu. Quererão elas lavar as minhas lágrimas, levá-las com elas? Pretenderão com isso aliviar a minha solidão? Se a minha solidão é maior que o mundo, igual ao amor que antes ocupava o espaço vazio do buraco que agora tenho no coração. Coração demasiado grande, demasiado vermelho e, por isso, agora sujo. E molhado. Ou talvez não. Mas se o amor que é verdadeiro nunca morre, mesmo com a chuva, mesmo com a sujidade, mesmo com os buracos… E agora? … Dia triste de chuva. Logo eu que gosto de chuva… triste ironia. Dia triste de chuva, mas se eu gosto de chuva… da chuva que cai das nuvens e, sem tempo para mais, é de imediato arrastada pela violência do vento que agita tudo por onde passa, levando pelos ares folhas mortas e restos e lixos esquecidos no chão, obrigando-os a dançar em espirais de remoinhos num qualquer canto sem saída… que desfigura as árvores e os nossos rostos que se contraem involuntariamente… ainda que temporariamente… o vento que, segundo dizem, traz a mudança… traz mesmo a mudança... e a chuva, a purificação. Coração vermelho, grande e sujo… purificado. Nunca mais será o mesmo. (04/03/2009)

domingo, 1 de janeiro de 2012

Profunda Alegria Profunda

Que saudades tinha eu de mim trivial... em termos de trivialidades; para onde foi a minha profundidade agora que só consigo escrever no registo da trivialidade? ... Sucede de tempos a tempos, é bom quando sucede, é bom de estar, de sentir, vive-se o presente. Sabe-se onde se está, não há grande perguntação no que a futuros acontecimentos diz respeito. Confia-se que vai correr tudo bem, pergunta-se menos, vive-se mais, pára-se menos, anda-se mais. Mas terei eu de escolher? Não conseguirei eu ter o bom destes dois mundos, destas duas partes de mim? Tem um alegre de ser necessariamente superficial? É a alegria necessariamente uma consequência da insconsciência? Diria que alegria é escolha dos privilegeados, mas, ainda assim, escolha. Não insensibilidade, mas resolução de estar bem apesar de tudo o que está mal, que quase parece ser mais do que o que está bem, mas não é, estou convicta (como quantificar?). Tem o aumento da seretonina o preço da assustadora superficialidade? Não pode, não seria justo, o mundo é terrível, mas não tanto assim. Virei-me para fora, ando assim virada agora, que é quando se conseguem fazer mais coisas ao mesmo tempo e eu agora faço muitas coisas ao mesmo tempo, que era coisa que eu sempre havia desejado fazer. Mas desejo agora, que esse e outros desejos se cumpriram, aliar estabilidade e profundidade; peço para ser capaz de olhar para mim e para o meu percurso com a mesma amplitude que quando estou desnorteada. Não é porque não estamos perdidos - ou porque de repente começámos a acreditar que não estamos - que não precisamos olhar a paisagem ao redor. É no momento de não estarmos perdidos que existem as melhores condições para que melhor se aproveite e desfrute das imagens que nos cruzam o caminho. Mas consegue um ser humano a habilidade de destrinçar nesse quadro tantas coisas como quando não está em pânico nem em perigo iminente? Que as situações limite têm o condão de nos trazer coisas que estavam guardadas há muito e que nem sabíamos possuir, coisas que voltamos a arrecadar mesmo sem querer quando abandonamos a fronteira que as despoletou. Queria conseguir. Queria ser capaz, queria, queria, queria... terei de abandonar ocasionalmente este meu momento de virar para fora com um momento de virar para dentro, ou conseguirei fazer ambos os momentos coexistir em harmonia? Simultaneamente, que agradável seria. Que equilibrado. Quem me dera aqueles momentos em que a adolescência mal resolvida volta a mim para ser revivida, não nos termos dos antigamentes, mas nos termos dos actualmentes, em que me sinto com vontades semelhantes às das adolescentes - passar-me-ão algum dia tais "vaipes"? Por vezes penso que vieram para ficar, o que não me aflige. Terei facilidade em conservar em mim a juventude, eis algo que sempre soube fazer, e isso passa também por saber aceitar e aproveitar "vaipes" de adolescência não tão adormecida quanto isso tudo...