"O medo mutila a escrita."

Salman Rushdie

Domingo, 28 de Agosto de 2011

Arco-Íris

Antigamente, quando à face da Terra se acreditava em contos de fadas e em sonhos, as pessoas todas sabiam que, no final do arco-íris, havia um grande tesouro, que haveria de trazer riqueza e prosperidade a quem conseguisse percorrer o misterioso, atribulado e sinuoso caminho até lá chegar... um caminho que ninguém sabia ao certo como percorrer, já que o arco-íris é daquelas coisas que quanto mais próximo se chega, menos bem se vê... torna-se difuso, confuso, disperso, mais transparente ainda e dispersa-se, sumindo-se como se nunca tivesse existido, fazendo-nos questionar se aquele arco de cores que tão bem havíamos distinguido ao longe não passaria e uma mera ilusão de óptica, uma partida da nossa mente, daquelas como ela tanto gosta de nos pregar...


O arco-íris... daquelas coisas que apenas ocorrem quando certas condições se conjugam e o permitem... que de tão raras e belas são desejadas... mas quando as nossas mãos tentam agarrá-las, se esvaem e desaparecem... revelam-se não se revelando, permanecendo no seu eterno mistério... assim são as coisas que são feitas de luz... de energia pura. As privilegiadas por Deus, únicas que conseguem viajar à velocidade máxima permitida neste mundo a tudo aquilo que existe... talvez por isso a velocidade me fascine, talvez eu queira tornar-me luz e iluminar tudo ao meu redor, talvez eu queira tornar-me luz para ser energia pura... será isso possível? Haverá de facto limites neste mundo? Ocorrerá nesta dimensão algo que seja realmente "puro", cuja pureza não possa ser destronada por pureza ainda superior?

Que misterioso confuso e complexo Universo este em que nos encontramos... ou talvez complexa, confusa e misteriosa mente esta que nos foi dada, rudimentar instrumento com que fomos apetrechados para descodificá-lo... ou ainda ínfima a capacidade que descobrimos até aqui, dentro das possibilidades de tal instrumento...
A luz e a cor... ou a ausência dela e a fusão de todas as cores... um dia o tesouro será encontrado... e que dor... e que alívio... às vezes penso se seria pelo tesouro em si... ou se pela simples vontade de poder mostrar ao mundo que se deve acreditar nos sonhos...

(22/06/2010)

Mudança...


Começar de novo em outro lugar... tantos dariam tudo por isso... mudar, mudanças... não consigo perceber o que acho e o que sinto quanto às mudanças... sinto falta delas se não acontecem, mas quando acontecem, com frequência se tornam maiores e mais fortes que eu... não as consigo acompanhar! Deve ser por isso que, em tantos momentos, teimam em não suceder... Como eu queria ser maior, esticar, crescer... poder com o mundo inteiro às costas e que ainda sobrassem forças e tempo! Tanto que há para fazer e para viver! ... Mas eu não chego para tudo o que queria chegar... foi tempo que perdi? Talvez... ou talvez não. Um passado feliz é perigoso... agarra-nos a ele e dificulta a felicidade mais adiante, por permanente comparação... ou não... dá-nos suporte para enfrentarmos as tempestades a que a vida tanto gosta de gosta de nos submeter... torna-nos mais exigentes, mas isso também nos leva mais longe, talvez! Não, por mais que sinta necessidade de mudanças, não fui feita para mudar... mas mesmo assim, mudo... não fui feita para me adaptar ao mundo; fui feita para que o mundo se adapte a mim - insensatez... ou talvez não. Mudar; um dia aprendi a mudar. Mudo todos os dias e gosto dessa mudança que eu mesma preconizo; mas a par com essa mudança há coisas que mudam e não deveriam mudar... deveriam permanecer no mesmo lugar, fazem-me falta lá! Há coisas que queria que mudassem, há coisas que queria que permanecessem... Nenhum dia igual! Gosto de mudança! Mas daquela mudança que eu possa acompanhar...

E por estes dias, que me anda a impressionar?


Impressiono-me eu a mim mesma, que somos fonte de constante estupefacção, se repararmos bem. Encontro-me em estado de permanente estupefacção e impressionação - talvez seja filósofa - por isso este blog. Impressiono-me pela maneira como consigo perder-me de mim mesma, achando que estou no caminho certo. Um dia, chego a uma colina, olho ao redor e vejo que me perdi outra vez de mim. Questiono-me onde estou eu e volto para trás, a refazer o caminho já caminhado, para perceber onde fiquei, para me ir buscar a mim mesma e prosseguir completa a viagem. Questiono-me como pode ser, se segui o caminho certo, se fiz tudo aquilo que podia fazer - é pouco, deve ser. Prometo-me a mim mesma que não mais o farei - perder-me assim - muno-me de tudo a que consigo deitar mão para evitar futuro semelhante desvio de rota. Digo-me que não foi propriamente um desvio, que foi simplesmente um momento de recolhimento de mim mesma - e mesmo assim, acho injusto. Nasci agarrada a mim, nascemos todos agarrados a nós mesmos; nada há que possamos fazer em contrário e ainda bem. Tudo o que conseguirmos ser ou não ser, jamais será alheio a quem somos - ainda que seja esse um enorme enigma, isso do que somos. Nascemos com a percepção de quem somos, alguma pelo menos, ainda que seja a vida quem está encarregue de nos ir mostrando um reflexo de nós; tal como apenas temos a percepção do nosso corpo de o olharmos ao espelho, sem nunca termos a possibilidade de nos olharmos a nós mesmos. Questiono-me, então, porque motivo ficamos nós privados de nós mesmos em certos momentos da vida? Porque nos transformamos apenas naquilo que "temos" de ser e não naquilo que somos verdadeiramente? Ficamos reduzidos a parte de nós. A maioria das pessoas não se apercebe que isto lhe acontece; muitos vivem com uma parte muito limitada de si próprios, julgando que são apenas aquilo. E é curioso que, quanto mais nos limitamos a essa mediocridade, mais a vida nos acalca e obriga a ocupar cada vez menos espaço. Como se achasse que é isso que nós queremos, e muitas vezes é. Mas não é isso que eu quero. Irrita-me até ter de aprender a obrigar o meu volumoso ser a caber nos interstícios de seres que nada me dizem, de coisas que não me pertencem. De gente e de coisas que não são eu. E eu estou em tantos sítios, porque me obrigam a estar onde não estou? Gosto de mim como completa como sou! 

Seguir o caminho certo nem sempre é certo. É tantas e tantas vezes errado, limitado. Por isso me perdi de mim mesma; é que segui o caminho certo, esquecendo-me de que no mundo não existem caminhos certos, ou que todos são certos, ou talvez todos sejam errados. Tive de parar por um instante voltar atrás, resgatar-me, mas será que me resgatei? Será que conseguirei sentir-me completa ou foi apenas mais um pouco de mim que consegui trazer comigo? Qual a parte de mim que consegui resgatar, apenas o tempo mo irá dizer, apenas ele mo pode revelar. 

Continuarei a reunir tropas; defender-me-ei com todas as forças, para que a vida não me leve de mim outra vez... se mal me descuido e lá fiquei pelo caminho! Não acontece pela primeira vez... Que zanga e que raiva - mau sinal. Sinal de que se repetirá mais outra vez. Ou não, talvez... se conseguir diluir a frustração e a impotência num mar de bom senso e equilíbrio... se conseguir estar atenta, suficientemente atenta... só assim conseguirei não me voltar a perder de mim...

Um ditado antigo diz: "Se o homem errado usar os meios certos, os meios certos operarão de uma forma errada". Este ditado chinês, infelizmente verdadeiro demais, estabelece um contraste agudo para nossa crença no método "certo", independentemente da pessoa que o aplica. Na realidade, tudo depende da pessoa e pouco ou nada do método.
(C G Jung).