Era uma vez… o MAE três… Era uma vez… a música, e gente a aprender coisas de música e de som. O coração a bater forte e a tamborilar de encontro às paredes do peito: e agora, o que nos espera? Expectativa e curiosidade; depois da habitual caminhada até ao Torreão: música, música, música… os pedagogos e o ensino da música. E restará a alguém alguma dúvida acerca do quão benéfica pode a música ser? Da importância que tem para as crianças que agora dão os seus primeiros passos neste mundo, tão cheio de coisas feias e más… o que seria de nós todos, se não fossem coisas como a música que nos devolvem a esperança e nos fazem ver a beleza da vida?! E nos mostram o que de mais belo o ser humano guarda dentro de si, esse que, todos os dias a todo o momento, se ocupa de deixar ver o que não lhe fica bem… A magia da música, que entra pelos poros da pele, e pelos ouvidos, e se espalha por todo o nosso ser, aliviando as dores e curando os males… os da mente, e do corpo também, pois que uma mente sã faz um corpo são… e a magia da música faz crescer as crianças com condições para serem melhores pessoas, pois se lhes desenvolve aptências e capacidades, se lhes liberta a mente e aviva a criatividade!
As vantagens que o ensino da música pode ter são óbvias e inúmeras… sempre o soube, sempre o senti. Pois se a música é vida para mim. É ela que me faz respirar em momentos de angústia, e que me liberta das dores dos dissabores… a que me faz esquecer de mim quando de mim não quero lembrar-me…
Lenga-lengas, voltar à infância! Mãe, como eu queria ouvir-te novamente cantares-me canções para me embalar… dão-badalão… cabeça de cão… orelha de gato, não tem coração! Quente e reconfortante memória, dos tempos em que a vida e o mundo eram bem mais simples… e a música estava lá… neste seu estado de simplicidade também, simplicidade e repetição, que assim, quando se é criança, interioriza-se melhor; a música ecoa melhor por cada esquina no nosso corpo frágil e pequeno…
Depois, as expressões unem-se e fundem-se num só momento de expressão; canções recriadas e encenadas; gente a dar de si e da sua criatividade! A esticar-se e a esticá-la até aos limites! Sejamos quem somos, cada vez mais, descubramo-nos a todos os instantes… que momentos de iluminação vivemos nós em Silves! Eis quem somos! A nossa essência derramada pelo chão do Torreão, pelas tabulas de madeira, no Castelo, pela atmosfera, pelo ar, uns pelos outros… jamais seremos os mesmos. Mágicos momentos, estes, que nos levam a dar de nós… explorar quem somos e até onde podemos ir… pelo menos, por hora! Já que a expressão pela arte é como um vício e um bicho que se nos instala na alma e depois nos puxa sempre para mais e mais, não nos dando sossego! Explorar quem somos e criar, criar, criar… recriar-nos, reinventar-nos, é descobrir-nos, na verdade! Renascer com tanta criação… libertar-nos de nós mesmos e de tudo o resto, para sermos um pouco mais quem somos na realidade.
Alma lavada e para sempre renovada…quero mais!
Canções e mais canções, dramatizar canções, inventar-lhes letras novas! Tanto que podemos fazer e é preciso tão pouco para muito nascer… quanto menos de coisas se tem, mais de criatividade se usa, mais se cresce! Quatro paredes e um punhado de gente chega perfeitamente!
E poemas em canções! Ah, meninos de todas as cores visitaram-nos em Silves… pretos e brancos, vermelhos e amarelos, castanhos esborratados da terra que é castanha e esborrata sem sujar, num êxtase da alma que se liberta e fica mais forte de se libertar! Índios, chineses… brancos da cor do açúcar e dos cremes dos bolos feitos de nata… que doce! Doces as vozes que se elevam num canto em uníssono, ao som da doce guitarra, doçura escondida por trás das máscaras brancas e doces… pretos da estrada preta ondulante, que leva ao infinito… índios vermelhos, loucos de gritos e de danças desenfreadas… amarelos da cor do sol e do girassol, mantra inesquecível: “é bom ser amarelo, é bom ser amarelo… é bom ser…”
Acordei. Foi tudo um sonho? Não! Hoje há mais! Aquecimento feito em ritmo acelerado pelas ruas íngremes acima… era tarde, tanta coisa bela para viver em tão pouco tempo… as pernas e os braços e o resto também, que não responde da mesma maneira que eu gostaria que respondesse… dias que se acumulam uns em cima dos outros e pesam… estes são leves, não leves para o corpo, mas leves para a alma… só que o pouco que pesam, pesam em cima dos outros que ficaram para trás, ainda antes de Silves existir… só um esforço mais, calçada engolida pelos passos apressados e pela vontade de chegar… e hoje, que nos espera?
Ginástica! Ou será ioga? Parece! Barriga para dentro e para fora, respiração abdominal, aprender a descontrair, saber o que beber e como beber para que a voz seja devidamente cuidada… como e onde sentar! Muito cuidadinho, nada ao acaso, nada é esquecido! E a minha voz jamais voltaria a ser a mesma; um fio perdido no infinito, mas ainda assim, ar vindo do fundo dos pulmões, quase da barriga, deitado cá para fora como deve ser, passando como deve ser pelas cordas vocais… umas horas apenas e eis a diferença! Sete anos a treinar a respiração, e nunca a voz… Depois, agora que já sabemos onde pôr a voz bem posta, cantemos! Vamos até África e deixemo-nos inebriar pelos sons contagiantes da bela Zomina… cantemos em coro, que quem canta seus males espanta! Cantemos bem alto, soltemos tudo o que temos para dar, para o ar; fique o que temos para dar para quem o apanhar!
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