sábado, 1 de janeiro de 2011

Digital


As linhas do dedo... tal como as linhas da mão, não se repetem por mais que uma vez, já que não há dois destinos iguais, já que não há dois dedos iguais, mesmo que assim o pareçam todos... uns maiores, outros mais pequenos, uns mais largos, outros mais estreitos, uns claros, outros escuros, uns direitos, outros deformados... uns de unha curva, outros de unha achatada, uns de unha arranjada, outros de unha encravada... mas um dedo é sempre um dedo... e é nas suas linhas que guarda o segredo. O segredo que não é segredo, afinal, que novidade existe na ideia de que somos todos únicos? De que nenhum de nós é igual, mesmo quando se põem dois lado a lado e, olhando-se-lhe para as feições, dir-se-iam iguais... haverá alguma coisa igual neste mundo? ... Acho que não; não há nada igual, a não ser que se o consiga repetir... e neste mundo nada se consegue repetir... o tempo não volta para trás... e mesmo que voltasse!

Isso do igual, foi invenção do ser humano, que precisa sistematicamente de inventar coisas que não existem, para se enganar e dizer que percebe, sem perceber que é essa tentativa de lhe fazer entender que o leva a caminhar ainda mais longe daquilo que é verdadeiramente compreender... mas ele tem de tentar, ou não fosse esse o seu motivo de existir - pobre condenado a não sair do mesmo lugar.

Igual; sinal da matemática que diz que são iguais duas coisas que raramente o são; podem até ter o mesmo valor, mas iguais, iguais, não são...

E de depois de toda esta dissertação ainda restam dúvidas a alguém de que nada neste mundo é igual... pois que posso eu fazer?

Se já todos ou quase borraram o dedo na tinta negra e o esborracharam contra um papel amarelo anunciando-se como "bilhete de identidade"; se já todos têm no seu âmago (não por causa do bilhete de identidade, mas por causa da sabedoria que sempre carregaram) a ideia que, tal como a impressão digital, nenhum de nós consegue ser igual a outro... então porque motivo insiste o ser humano em caminhar sob a sombra fresca e tranquilizadora da multidão? Por que motivo insiste o ser humano em gerir a sua vida em função daquilo que fazem os que o rodeiam? Por que motivo, quando dá por si, já fez tudo igual aos outros?

Se até as linhas que rasgam a pele da cabecinha do dedo o rasgam de forma diferente em cada pessoa, por que motivo para fazer diferente dos demais é preciso fazer melhor?

Há, não só nos confins da Lusitânia, mas também e sobretudo, nos confins do Universo, um pequeno planeta azul que não se governa nem se deixa governar... e não é que seja rebelde, não não... é que até no ser rebelde os seus habitantes encontram maneira de ser iguais... sem saber que são todos iguais na sua essência, sem saber que no descobrir das duas diferenças individuais, do quão especiais são, está o segredo dessa essência... dessa unidade, dessa igualdade que tanto desejam... não, não é por rebeldia que não se deixam governar... é sim por pura ignorância...

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