terça-feira, 10 de setembro de 2013

Não impressionada



Eis que a paz e a tranquilidade se abatem sobre a minha cabeça. Supostamente deveria ser agradável, mas é pura estratégia de defesa para não enlouquecer ainda mais. É pura letargia, pura desistência e impotência por perceber que nada posso fazer para evitar que as coisas sejam assim. Na verdade não sei se não estão bem assim, na verdade não sei se não se trata de pura fraqueza minha, falta de confiança, coisa que deveria já ter condições para ter. E ainda não tenho, mas já vou tendo. Por isso é que desisti de não estar em paz e tranquilidade. Por isso é que desisti de ter medo. Já não consigo ter medo, porque para ter medo é preciso ter energia e eu já não tenho energia. Ou tenho, que a tenho ido buscar lá ao fundo, mas não é para a gastar no medo. É para reagir, como eu ando sempre a dizer aos outros para fazer. Reagir. Tenho de reagir. Não sei bem como é que isso se faz, acho que já o fiz umas quantas vezes, mas nunca estive muito atenta ao que estava a fazer, então não reparei, simplesmente reagi. Deu certo, deu mesmo, a ver se da próxima vez estou com atenção e anoto a receita de como se reage ao medo. Ao medo das coisas que não se vêem e não se sabem da incerteza do chão que se pisa. De onde se vai meter o pé. Tem-se medo das irregularidades do solo que se cravam nas plantas dos pés despidos, que a caminhada se faz sempre de pés despidos. Mesmo que os tentemos calçar, não há calçado que resista a tanta irregularidade e diversidade de irregularidades de pisos que nos surgem a cada virar de esquina, a cada curva de estrada. Ainda quando as irregularidades cravadas nos pés vêm acompanhadas do cheiro suave das flores, de momentos de erva macia e verdejante, do chilrear doce dos pássaros encantadores que o caminho vai revelando... mas e se não houver muletas de cheiros suaves e sons doces para nos apoiarmos? E se tudo for hostilidade e irregularidade a cravar-se na carne? E se nos depararmos com um monstro e estivermos sem forças para o defrontar? Vem o medo, o medo que brota do pensamento e das imagens que surgem na mente, e das recordações dos momentos em que os monstros apareceram sem estarmos capazes de estar à sua altura. E nos engoliram e nos enfraqueceram para sempre, deixando na alma uma cicatriz por cicatrizar, uma ferida aberta que nos faz coxear vida fora. 

Não tenho medo. Já comprei a armadura. Comprei-a e embuti-a em mim, na minha alma. Doeu. Mas é doce o sentir das balas chegando e voltando para trás. Doce sem ser suave, o ondular da chapa ao sabor do choque, transformando a violência em diversão. Nem sempre absolutamente agradável, nem sempre sem medo ou desconforto, mas ainda assim, diversão. Mas é doce o sentir das unhas dos monstros arranhando o metal, impotentes. O perceber a voz doce e suave, tal como os sons e os cheiros, que se faz ouvir ecoando pelas paredes metálicas e que me fala, e que me tranquiliza. E que garante que a dor só vem do que não faz sentido, que o não saber e o não perceber fazem doer, e que diz que me vai explicar, que eu vou saber e perceber. E já comecei, já me começou a explicar. Já começou o medo a fugir. E a paz a chegar.

sábado, 31 de agosto de 2013

Impressionada com... o caos.



Olho do cimo do morro para a paisagem que se estende ao meu redor. Não vislumbro qualquer saída simpática ou agradável. Não há muitas saídas, e das que há, nenhuma se apresenta como simples, viável, agradável, transitável. Qualquer das saídas, para ser lógica ou decente, pede-me que tenha fé. Mas agora vejo, perdi a fé. Não que tenha motivos para isso. Simplesmente vi que a felicidade é coisa muito simples, nem carece de muita fé. Quando se chega lá, à felicidade, fica-se confortável. É bom estar lá, vive-se o presente, mas esquece-se de sonhar. Infelicidade, eu te abençoo, pois nenhuma como tu nos atiça a capacidade de sonhar; foste tu quem me ensinou a sonhar! Quando era feliz não tinha sonhos... talvez não fosse feliz. Ser feliz não é descansar. Ser feliz é sonhar, batalhar, é caminho, não é chegada. Mas cheguei, que bom que cheguei, merecia chegar, descansar, foi tão bom chegar. 

Agora não queria partir. Procuro pelas forças, sem as conseguir encontrar, não as vejo, não as acho, por mais que procure. Algo diz que quando delas necessitar, irão aparecer. Tenho dificuldade em acreditar, não estou segura, desconfio, não estou habituada a confiar.

Se fui traída quando confiei, não quero mais fazer os meus planos tendo que confiar. Deixar-me construir o meu amanhã só sobre aquilo que conheço e não no que não conheço. 

Mas não fui traída quando confiei, apenas pensei que seria de uma maneira e foi de outra, mas a outra maneira que foi, foi tão boa. Tão boa! Tantos dos meus sonhos se concretizaram, talvez todos! A minha fé transformou-se e manifestou-se no real de forma tão forte que me pareceu normal aquilo que julgava que apenas a sorte me pudesse trazer. Guardei o sonho e a fé na gaveta, usei-os tanto que quase os gastei; agora já não parecem fazer falta, agora já me regularizei, a mim e à minha vida.

Mas a vida não é assim, a minha vida não é assim; é professora exigente, mestra implacável que não esquece por momento algum a possibilidade de puxar mais por mim, dilacerar-me até quase me matar, deixar-me chegar ao limite do limite. Na minha lição vem a fé e o sonho e ela sabe que eu me esqueci. Eis que a minha professora vida decide fazer revisões; de repente, quando dou por ela, rebobinou vários anos e traz-me à memória tanto do que esqueci - mas é apenas uma parte - afirma a professora vida - que o resto está ainda por vir.

Coisas encaixarão, verdades se revelarão. Queria senti-las antes de as ver, mas isso será algo que terei de merecer; que uma mente iluminada não se constrói de hoje para amanhã. Lá chegarei. Por agora, queria apenas ter as forças que necessito para lutar, pois é luta, mais uma vez, que se avizinha... como eu queria paz! Mas a paz só vem no jazigo. Viver é não ter paz ou, pelo menos, é certamente não ter descanso...

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Carta a Tristina - Parte II



Vês inveja ao teu redor, mas és tu a invejosa. Vês más intenções ao teu redor, mas és tu a maldosa. És intolerante para com os demais, porque és intolerante para contigo mesma, porque te odeias a ti própria e depois pensas que são os outros que te odeiam porque são maus. Má és tu. Só tu. Parecem-te estranhos os demais que não actuam como tu achas que deveriam, que saem um pouco da norma, essa que te trás falsa segurança e te tentas em vão encaixar; por isso te odeias tanto. Só quem se odeia se dá a esses intentos. Estranhos os demais que saem um pouco da norma do teu mundinho pequenino, triste e limitado. Mas não é a eles que tu estranhas - é a ti. És tu quem tu não conheces, nunca te viste sem o veneno e sem o lixo.

Limpa-te e verás o quão estranha tu própria és, e perceberás que ainda bem, pois é isso que faz de ti única. 

Queres tão mais do que tens, mas não fazes nada para o conseguir. É preciso que te dêem um estalo na cara para te mexeres, e mesmo assim, rapidamente adormeces de novo. És preguiçosa e cobarde. Mas ao dizer-te isto sei que pouco te ofendes, pouco te picas, apenas sentes auto-comiseração por ser este o teu farto, aguentares contigo própria assim, preguiçosa e cobarde. Deixas-te arrastar pela vida como um peso morto, sem reagires ou tomares grande iniciativa. Provavelmente a pouca que tens já te parece muita. E quando tentas, quando surge a oportunidade e tu tentas, no fim amaldiçoas a experiência, és incapaz de ver a tua luta de forma positiva, de compreender que é com a luta e com as dificuldades que se cresce, e se não vês esse crescimento, então és tu, mais uma vez tu, e a tua míope visão. És uma falhada, uma infeliz falhada; tão jovem ainda e já tão falhada. Procuras amor quando só consegues dar ódio e veneno, mesmo quando julgas que estás a dar amor. Depois espantas-te, quando te dão veneno em retorno.

Queres que acreditem nas mentiras que vendes a teu respeito. Queres que acreditem numa mentira em que também tu gostarias de acreditar e, para que isso de acreditares seja mais fácil, tentas convencer os outros. E achas-te boazinha. E que isso de seres boazinha te dá o direito de ser má. Isso tem um nome; é comummente conhecido por "soncisse". Mas repara; és tão rápida a deixar cair a máscara, que não consegues nunca que ninguém chegue a acreditar na tua mentira por muito tempo. És uma pobre coitada - e pareces tirar algum tipo de prazer mórbido disso.

Carta a Tristina - Parte I


Olá, boa noite.

Espero que estejas melhor. Melhor de quê, perguntas tu. E eu respondo: melhor de seres quem és. Porque tu és doente. E tu perguntas: "Não quererás dizer 'estás doente', em vez de 'és doente'?". E eu respondo que não sei, diz-me tu. Tens a alma doente e não sei se isso se cura, por isso digo que és doente e não que estás doente. E a cada dia, vejo-te mais chafurdar no lamaçal da estupidez, da maldade e da falta de inteligência. Inteligência esta que, já de si, sendo parca, é ainda diminuída pelo teu espírito mesquinho. Porque a bondade só se manifesta quando há inteligência. Porque a bondade manifesta-se sobretudo quando somos agredidos. É em condições limite que se vê o nosso carácter. Talvez seja a tua falta de entendimento das coisas e das pessoas que te faz ver mal em todo o lado, inclusivamente onde não existe. Tu vês mal em todo o lado, porque ele está dentro de ti. Engoliste veneno à nascença, não sei quanto dele, e agora sentes veneno ao teu redor e cuidas que ele lá está, e agrides para te defender. Agrides aqueles e aquilo que a tua visão turvada de veneno te faz ver cobertos de veneno; mas não, és tu. 

O veneno está todo dentro de ti, e em mais lado nenhum. És como o cachorro que corre desalmado para alcançar a própria cauda. Corre, cansa-se, anda em círculos e não chega a lado nenhum. Desgasta-se para nada, por uma presa que não existe, que ele próprio inventou, para ter algo que perseguir, para ter uma meta na sua vida sem metas. Olha para a tua vida. Algum dia terás feito alguma coisa certa? Sim, talvez, das vezes em que foste bondosa. Mas, mesmo nessas alturas, a tua alma cheia de veneno nunca te deixa fazer realmente o bem, mesmo que o queiras fazer. Estás num beco sem saída. És uma infeliz e serás para sempre uma infeliz, porque te congratulas com sentimentos de auto-comiseração, como se te sentisses protegida pela auto-piedade.

Compreende que os monstros que tanto queres combater fora de ti, estão todos dentro de ti, estão todos dentro de ti. Compreende que recebes daquilo que dás. Ao olhares ao teu redor, podes pensar que não, mas o mal nunca trouxe felicidade a ninguém. Quem faz o mal pode até parecer feliz, mas na verdade não o é. Quem faz o bem, mais tarde ou mais cedo será recompensado. Sê nobre por uma vez na vida, uma única vez, sê corajosa e olha para o caos e a sujeira que tens dentro de ti. É normal que sujes tudo por onde passas, estás cheia de lixo dentro de ti. Limpa-te por dentro, torna-te gente. E isso começa por aprenderes que o mal nunca te levará a lado algum. 

domingo, 11 de novembro de 2012

Ingenuidade ou o abalroamento de susceptibilidades...



... ou a escolha de confiar sem saber se se pode ou se deve. Ou a escolha de acreditar no melhor que os outros e o mundo têm para dar... porque quem não acreditar, não verá jamais.

O pecado dos pecados; o mais terrível dos pecados que insisto em cometer, porque sim, porque escolhi. O pecado da ingenuidade é o maior dos pecados porque é perigoso, muito perigoso. De ingenuidade, podemos prejudicar o próximo, porque o ingénuo é míope, não vê, não quer ver, deita por terra a carga que alguns entendem dever carregar... mas o ingénuo não carrega essa carga, umas vezes porque nem sabe bem por onde ela anda, outras vezes porque até sabe onde ela está, mas escolhe aplicar suas energias em outra coisa qualquer, que o não carregue. 

O ingénuo míope, na sua ingenuidade e estupidez, abalroa os demais, negligenciando os seus ais e demais susceptibilidades iguais a ais que se proferem por dentro quando vem o ingénuo a abalroar. 

Temos medo do ingénuo que se descarta das responsabilidades de ceder a susceptibilidades. Que teríamos agora que andar em bicos de pés, nós, felizes ingénuos, que escolhemos não ver a realidade tal como ela é. Que escolhemos ignorá-la na esperança que assim desapareça, que talvez assim se transforme naquilo que não é.  Teríamos de andar em bicos de pés, dizem os susceptíveis.

Ingenuidade perigosa porque deixa livres os nossos verdadeiros intuitos, e não pensa nas consequências. Confia no Universo e na vida que lhe dizem que se agir bem e na melhor das intenções a cada momento, tudo se ajeitará no fim. Não se importa que se lhe vejam as entranhas, as verdadeiras intenções, porque as entende boas e positivas; acha que não tem de se importar com abalroar. Susceptibilidades, abalroar susceptibilidades. 

Superficialidade é não ceder a susceptibilidades. Ingenuidade é superficialidade. Acham os susceptíveis.

Coitados dos susceptíveis, que precisam de não ingénuos cuidando das suas susceptibilidades... coitados dos susceptíveis, que necessitam que os outros parem no seu percurso para lhes acudir nas feridas que o próprio ego, inchado de orgulhos e não-pecados afins, lhes infligiu, ao ver o ingénuo passar, ignorante intencional das susceptibilidades provocadas pela felicidade ingénua dos ingénuos e pelo ego inchado dos susceptíveis, que se deixou ferir porque quis ter um motivo para se sentir mal, porque se sente mais seguro se se sentir mal. É sempre mais seguro ser-se a vítima. 

Não-ingénuos são os que ouvem tudo e escutam tudo, mesmo os egos inchados; não-ingénuos crêem na desgraça e na maldade, e caem na armadilha quando as susceptibilidades alheias começam a manifestar-se. Resolvem dar-lhe crédito porque têm medo, porque também eles são susceptíveis e capazes de ferir para não sentir e não ouvir as suas próprias susceptibilidades, julgando o outro responsável pelo que eles próprios escolhem sentir. Sacudindo a água do capote do ego, culpando os outros porque o seu ego foi ferido, como se não tivesse o dever e a responsabilidade de controlar o seu próprio ego e de ficar feliz por ver os outros felizes ao invés de se sentir ofendido.

Quem serão, então, os verdadeiros ingénuos?

domingo, 4 de novembro de 2012

Ao contrário


Hoje sou eu que me viro contra mim; é quase sempre assim, e com todos nós, não apenas comigo, somos quase sempre nós a virar-nos contra nós. Hoje estou assim, do avesso; tenho o coração na boca a bater, a bater muito. Mas não corri, sequer me mexi, mas ele bate, como se voltasse da maratona. Quanto mais sossego, mais ele se agita, quanto mais me acalmo, mais ele palpita, e eu não percebo porquê. Talvez funcione ao retardado, como os relógios que ficam para trás na acção de mudar a hora pelo Outono. Talvez se agite pelos momentos passados em que corri, talvez se agite pelos momentos em que outrora fiz e aconteci. Talvez se tenha esquecido de bater então, nesses tempos, e tenha de bater agora por tudo o que se esqueceu de bater. 

Trago o estômago no pescoço, a par com o coração na boca. Algo ficou pelo caminho; algo que deveria descer e não desceu, ou algo que deveria subir e não subiu. Aqui ficou, e agora não respiro bem, os pulmões não se enchem se não empurrar o ar, se não o puxar com um suspiro. 

E se me esquecer? Se me esquecer de mim e do bater descompassado, e mais do que por aqui me ficou entalado... talvez o esquecimento, e o adormecer me faça perder do descompasso generalizado do corpo que procura vingança por algo que não lhe fiz. 

Talvez por isso o sono me invada a todos os momentos e talvez por isso eu teime em não ceder e durma ainda menos, numa atitude de rebeldia, como quem diz aqui quem manda sou eu. O corpo que escolhe desligar-se e esquecer-se do mundo e da vida, como se lhe não apetecesse, como se eu lhe houvesse pedido em demasia, por algo que não lhe apetecia fazer. 

É doce ceder à chantagem que o corpo faz quando pede por descanso; é difícil resistir-lhe e à sua vontade de sucumbir. Não, quem aqui manda não sou eu, que as minhas forças são tão mais frágeis do que os mandos e desmandos de um corpo que tem vontade absolutamente própria e que deita por terra toda e qualquer resistência que um qualquer livre-arbítrio possa tentar impor-lhe...

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Magia


 Fada ou bruxa? Qual a grande diferença? Talvez a mesma que existe entre o bem e o mal. E existe, de facto, essa diferença? Todos nós transportamos, por dentro, um pedaço de branco e um pedaço de negro. Há o que desperte em nós o negro e há o que desperte em nós o branco, porém, há de nós aqueles que deixam que o negro desperte com mais facilidade e outros que deixam ser o branco a fazê-lo, assim, naturalmente, sem mais nada, porque uns são mais de certa maneira e outros são mais de outra maneira, pois bem. E eu? Bruxa ou fada? Olho-me ao espelho e vejo que a bruxa cresce ao mesmo tempo que a fada. Que a fada precisa da bruxa para ser forte, mas que a bruxa sai fora de controlo sem a fada. E é estúpida, e só faz porcaria, e é esperta como os cães, mas falta-lhe inteligência, à bruxa, que a verdadeira inteligência vem da bondade, já lá dizia o outro e com razão. Tudo o resto é esperteza apenas e tão só; mas a fada sem a bruxa esquece-se que o mundo está cheio de gente cheia de más intenções e que é preciso aprender a pensar como a gente má, para contra ela se criar um escudo belo, invisível, suave e subtil, que nem se vê, que nem se sabe existir, mas que está lá. Por vezes apetece-me ser apenas bruxa; outras, apetece-me ser apenas fada, mas é na junção das duas que está a minha verdade. Olho para mim e desconheço-me; antes não havia bruxa, mas também não havia fada. Se quero uma, preciso da outra, elas alimentam-se e interdependem. 

A bruxa enfraquece a fada com a sua estupidez. E a fada enfraquece-se a ela mesma com o seu esquecimento. E alheamento, e mergulhamento num mundo de fadas, mas não fui feita para viver num mundo de fadas. Fui feita para chafurdar na lama das coisas que às vezes cheiram mal, e aprender a fazê-lo sem perder-me de mim e da dignidade. Chafurdar na lama é bom porque encontramo-nos com monstros e os monstros têm sempre coisas boas para nos ensinar, e eu aprendo coisas boas com os monstros, mas depois apetece-me ir embora, que me sinto suja, e vou, embora.

Tantas vezes penso como seria mais tranquila a minha vida eu fosse apenas fada, mas depois penso que quem anda por aí com magia nunca é apenas fada, pois faz coisas que não se vêm por aí e o mundo tem medo das coisas que nunca viu, não compreende e não percebe e ataca, como fazem os que vivem dotados de irracionalidade. Às vezes quero descansar, mas não posso, a lama chama por mim, e eu vou; com o gel de banho atrás, contudo. 

Porque foras da lei são tanto as fadas como as bruxas e rasgar pelo mundo os caminhos menos percorridos necessita de tanta força que o bem por si e o mal por si, não têm força... só aliando as suas energias se consegue conquistar o mundo...

quinta-feira, 1 de novembro de 2012


Um dia, apanha-se o comboio. Durante muito tempo, caminhou-se a pé. Doíam os pés, faziam-se bolhas e feridas de toda a espécie. Mas um dia, apanha-se o comboio. Chega uma altura em que temos de correr, porque o comboio já vai em andamento; na vida, todos os comboios já vão em andamento, e antes de se os apanhar, é preciso correr, correr muito. Por vezes, é preciso correr depois de caminhar, quando já se está ferido e cansado, mas se se correr, às vezes, apanha-se o comboio. E depois olha-se para a paisagem que vai ficando para trás, engolida pelas linhas do horizonte, e vai-se vendo o sentido, vai-se percebendo o modo como tudo converge, a forma como tudo se encaixa num quadro maior, a forma como umas coisas se seguem às outras. Quando se apanha o comboio, os solavancos são suaves, comparados com o chão duro, frio e irregular, cheio de arestas cortantes, que nos serviu de sustentação em anteriores momentos. Ainda assim, ao cabo de uns tempos de comboio, os próprios solavancos começam a parecer excessivos, deixamo-nos embalar pela constância do percurso, assim como pela sua previsibilidade e acabamos a elevar os padrões de exigência. Somos estranhos, nós seres humanos, mas bem me parece não ser esta a primeira vez que por aqui faço tal constatação. 

De comboio, tudo flui, a paisagem passa rápida pelos vidros, não deixando a vista deter-se em demasia naquilo que não é absolutamente essencial. Sobram energias para pensar no futuro e o objectivo mais próximo deixa de ser apanhar o comboio, começamos a lembrar-nos de todos os projectos que adiámos enquanto o chão irregular e cheio de arestas cortantes apenas nos deixava sonhar com o comboio... e nessa altura, pensamos que perdemos tanto tempo a desejar apenas algo tão básico como o comboio, que a aflição vem, a sensação de que é preciso recuperar o tempo perdido, a sensação de que, mesmo parados, dentro do comboio em movimento, precisamos correr, acrescentar movimento ao movimento. 

E o comboio ganha velocidade e começamos a esquecer-nos de como era antes do comboio, começa a parecer-nos inacreditável que algum dia tivéssemos realmente caminhado de pés descalços no chão, e questionamo-nos "como foi mesmo" que apanhámos o comboio, já não conseguimos recuperar os detalhes...

Que o comboio acelere, que eu deite cada vez mais lenha para a sua caldeira e faça o que estiver ao meu alcance para lhe aumentar a velocidade, numa tentativa, é certo, de não atropelar ninguém, mas também de não só não me atrasar ainda mais, mas mais que isso, de fazer agora o que não pude fazer antes... antes que seja tarde de mais...

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Sonhos derramados

Porque os sonhos às vezes derramam, vasam, entornam por fora, quando são demasiado grandes, tão grandes que não se os consegue suportar. Quando ao invés de nos obrigarem a andar para a frente, nos esborracham, paralisam, imobilizam. Quando são tão belos que preferimos mudar-nos para lá, de armas e bagagens, abrindo mão de uma vida que nos surge sem interesse, perto das possibilidades ilimitadas que um sonho oferece... esquecer que o mundo existe, com os seus reais limites... e passar para um mundo onde os limites somos nós quem os inventa... que possibilidade tentadora, a de se brincar de ser Deus!

Pois que se flutue nos sonhos derramados, que quando são assim tão grandes e derramam, acordam-nos no meio do seu jorro furioso, o dia em que, de voar tão alto, acabamos a cair desamparados no chão... acordamos, acorda-nos o chão, acorda-nos o frio da realidade... flutuemos então, que um sonho nunca é em vão, salvemo-nos, que só se afoga em sonhos quem quer... Flutuemos nos sonhos enquanto contemplamos o mundo real e auscultamos onde cabem os nossos sonhos... são os sonhos que nos salvam, não que nos afogam; a foice quem a carrega é a realidade e o mundo, são os sonhos que nos desenham a armadura com que dela nos havemos de defender...

sábado, 27 de outubro de 2012

I'm scared

The future is coming. And the future is not as I expected. 

Está a tomar feitios que não lhe conhecia. Não que eu conhecesse o futuro, mas tinha dele uma ideia. Às vezes, quando o futuro chegou, eu percebi que já o conhecia, foi bom, é mais fácil, já se espera, tudo flui melhor, adaptamo-nos melhor. Este agora, não lhe conheço o rosto... não é que não desconfiasse, mas não me apetecia que fosse assim... mas se calhar é melhor que seja assim. Normalmente, é sempre melhor que seja assim. Da maneira que é, acabamos a perceber que foi melhor. É verdade que nem sempre percebemos isso, mas acho que é muitas vezes assim, quase sempre. É melhor que seja assim. Tenho a certeza.

Mas dá medo. Mais que não seja, porque o corpo não gosta. O corpo não gosta do futuro, porque o futuro empurra as pessoas para a frente, e o corpo não gosta que o empurrem. Dói-lhe, agita-se, o coração bate muito depressa e o corpo enche-se de coisas que fluem pelo corpo fora, pela corrente sanguínea; os venenos segregados pelo coração a bater muito, contaminam cada músculo, deixando-o tenso e magoável. E eu também fico magoável, de equilíbrio intermo e homeostasia ameaçados.

O corpo e a mente não gostaram do futuro há uns tempos. Só a alma gostou, a alma regozija-se ainda agora, a alma cresceu, desenvolveu-se... porque será que o corpo não quer? O corpo que continua contraído de dor, batalhando para voltar a ser como era. Porque oferece ele tanta resistência? Porque se alvoroça a química interna? Se a alma cresce, o corpo podia tão bem colaborar... e não virar-se contra o guerreiro que luta todos os dias a dura batalha da adaptação às circunstâncias em permanente mutação, sobretudo quando o guerreiro não é assim lá muito de guerras dessas, dessas pelo menos, dessas que mais se parecem com furacões, arrancando do sítio o mais elementar dos objectos, a escova de dentes, o garrafão da água, e recolocando tudo noutro sítio qualquer, um sítio daqueles que a mente insiste em não se recordar.

Hajam desafios, que são eles que alimentam a alma, mas convença-se o corpo a acompanhar os desafios, faça-se o corpo perceber que a inércia é para ser vencida, caso contrário de nada servirá, de nada lhe servirá a tal da inércia, só para ajudar ao andamento em marcha à ré...